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A Primeira Batalha de Moytura

A Batalha de Moytura
ou, A Primeira Batalha de Magh Turedh
H.2.17 (T.C.D.)

1.'Filhos do poderoso Nemed, qual o motivo de vossa reunião ? O que os trouxe aqui – contenda, conflito ou combate ?'
'O que nos trouxe de nossas casas, oh sábio Fintán, é isso: nós sofremos nas mãos dos Fomorians da Irlanda pela razão do tamanho do tributo.'
'Qualquer que seja o tributo, ou quem quer ou onde quer que tenha sido imposto, não está em nosso poder arcar com ele ou dele escapar.'
'Há dentre vós um grupo, belicoso embora pequeno em toda a terra, que pode trazer mais ruina do que tributos aos Fomorians.'
'Partam se pensam que essa é a hora certa, gloriosos filhos de Nemed; não sofram desnecessariamente, não fiquem aqui, mas vão para longe.'
2.'É esse o teu conselho para nós, sábio Fintán ?' 'É esse,' disse Fintán, 'e ainda tenho mais conselhos para vós: não deveis ir por uma rota ou direção, pois uma frota não pode ser reunida sem irromper de uma luta; um grande número significa discussões, estranhos provocam desafios, e uma hoste armada, conflitos. Vocês não acham fácil viver juntos em qualquer ponto da Irlanda, e não seria nem um pouco mais fácil para suas hostes ao buscarem novas casas.'
3.'Partam dessa terra, filhos de Nemed; deixem a Irlanda e escapem da violencia de seus inimigos.'
'Não fiquem mais aqui, não mais paguem tributos. Seus filhos ou seus netos retomarão a terra de onde agora fogem.'
'Deveis viajar para a terra dos Gregos – não é uma falsa história que conto – e embora vocês partam em milhares, sua força não será vista como suficiente no Leste.'
'Os filhos do resoluto Beothach devem deixa-los e ir em direção ao gélido Norte, os filhos de Semeon em direçao ao Leste, embora vocês sintam que isso é estranho, partam.'
4.Então eles se separaram, Fintán e os famosos filhos de Nemed. Beothach, filho de Iarnobel, permaneceu, com seus dez homens e suas esposas, na Irlanda, de acordo com o poeta:
Filho de Iarnobel, Beothach dos julgamentos claramente ditos, permaneceu na Irlanda. Seus filhos foram para o leste, para o noroeste de Lochlann.
5.Assombrosa é a ignorancia mostrada por aqueles que pensam que Tait, filho de Tabarn, era o único rei sobre os filhos de Nemed, pois ele ainda não era nascido. Ele nasceu no Leste, e nunca veio para a Irlanda.
6.Imensa era a frota, ávida a reunião, considerando quão poucos aportaram da grande companhia que deixou a Irlanda, pois apenas trinta homens escaparam na tomada da Torre de Conaing, e desses, um terço permaneceu com Beothach na Irlanda. Os vinte restantes se multiplicaram grandemente, pois o número de navios que agora deixava a Irlanda era de dez mil cento e quarenta.
Aqueles amigos queridos, então, separados, e tristes, e pesarosos, eram o pequeno resto que permaneceu na Irlanda...
7....os mistérios da magia, o conhecimento, o aprendizado, e dons proféticos, o domínio das armas e feitos astuciosos, as viagens e andanças dos filhos de Ibath, pois aconteceu de, naquelas histórias, que todos partiram de um lugar vir a ser dito. Uma narrativa diferente é necessária para cada raça. Comovendo os filhos de Semeon, filho de Starn. Uma tempestade os tirou de seu curso, até que eles chegaram às terras secas da Trácia às arenosas praias da Grécia, e ali eles aportaram. Então os habitantes e campeões da terra os visitaram, e fizeram um acordo de paz e concordaram com eles. Território lhes foi dado, mas na praia, nas fronteiras distantes, em gélidos trechos ríspidos e de rochas acidentadas, nos lados das colinas e encostas das montanhas, em cumes inóspitos e ravinas profundas, em terra alquebrada e território inapropriado para o cultivo. Mas os estranhos levaram uma grande quantidade de solo para as lisas pedras nuas e as transformaram em sorridentes planícies cobertas de trevos.
8.Quando os chefes e homens poderosos da terra viam os lisos, amplos e verdes campos, e as grandes extensões de terra frutiferamente cultivada, eles expulsariam os ocupantes, e lhes davam em troca rudes regiões selvagens, duras terras pedregosas com serpentes venenosas. De qualquer modo, eles domesticavam e cultivavam o solo, e os transformavam em bons campos frutiferos, belos e amplos como todas as terras que lhes eram tomadas.
9.Mas enquanto isso, os filhos de Nemed aumentaram e se multiplicaram até que eles contavam muitos milhares. O tributo ficou mais pesado e seu trabalho mais duro, até que eles, agora uma poderosa companhia, resolveram secretamente fazer grandes barcos curvos das bem tecidas trouxas que eles usaram para levar o solo, e navegar para a Irlanda.
10.Duzentos anos tinham se passado desde a tomada da Torre de Conaing até o retorno dos filhos de Semeon à Irlanda. Foi na mesma época que os famosos filhos guerreiros de Israel estavam deixando o Egito em busca da feliz terra prometida, enquanto os filhos de Gaidel Glas se moviam do sul após a fuga do povo de Deus e o afogamento do Faraó, e chegavam à rude e gélida Scítia.
11.Durante os duzentos anos após a tomada da Torre de Conaing, os fihos de Semeon se multiplicaram até que somavam muitos milhares, formando fortes hostes corajosas. Por conta da severidade do trabalho e o peso da servidão impostas, eles decidiram fugir da perseguição, se esforçar para escapar e seguir seu caminho para a Irlanda.
12.Eles fizeram barcos de suas trouxas, e roubaram alguns barcos, botes e galeras dos soldados dos Gregos. Os lordes e líderes, cabeças, chefes e campeões daquela frota eram os cinco filhos de Dela, de acordo com o poeta:
Para a nobre Irlanda assim partiram os cinco filhos de Dela filho de Loth, o impetuoso,
Rudraige, Genann, Gann, Slainge das lanças, e Sengann.
13.Eles o fizeram no anoitecer, e guiaram seus navios no porto onde eles haviam aportado. Slainge, o mais velho da companhia, que era o juiz entre seus irmãos, arengou com eles como segue:
'Agora é a hora do esforço, cuidado e atenção; feroz e cinzento com a espuma é o mar; cada bela frota parte para escapar do intolerávelmente errado; à tirania dos Gregos não estamos acostumados; as planícies da Irlanda portadora dos salmões temos de lutar para conquistar. 'Prestem a atenção e vejam a injustiça e erro que sofrem. Vocês tem em nós cinco bons homens para liderar a frota, cada um de nós páreo para uma centena.'
'Isso é verdade,' seus seguidores responderam, 'Vamos fazer o povo dessa terra pagar toda a servidão e os pesados tributos que eles impuseram a nós.' Então eles mataram cada um dos Gregos dignos de matar que eles pegaram, e devastaram as terras vizinhas, e nelas fizeram uma incursão destruidora e as queimaram. Então eles trouxeram seu saque e espólio para o lugar onde seus navios e galeras estavam e os belos barcos de proas negras que eles haviam feito de suas trouxas e sacos, isso é, para Traig Tresgad.
14.Mil cento e trinta era o número de navios que partiram, de acordo com o poeta:
'Mil cento e trinta navios – esse, sem falsidade, é o número que acompanhou Genann e seu povo do Leste.
Númerosos, sem dúvida, eram os Fir Boig quando eles deixaram a Grécia, uma forte companhia que partiu vigorosamente em sua viagem, mas não em uma frota construida de madeira.
Na Quarta-feira eles partiram para o Oeste sobre o grande mar Tirreno, e após um ano inteiro e três dias eles chegaram à Espanha.
De lá para a nobre Irlanda eles fizeram uma rápida viagem; todos podem proclamar isso, eles tomaram um periodo de treze dias.'
15.Então eles chegaram à Espanha. Eles perguntaram aos seus videntes e druidas por informação e direção sobre os ventos que seriam os próximos a leva-los para a Irlanda. Eles navegaram adiante em um vento sudoeste até que viram a Irlanda à distancia. Mas nesse ponto o vento se ergueu alto e forte, e sua violencia levou enormes ondas contra os lados dos barcos; e a frota se separou em três grandes divisões, os Gaileoin, os Fir Boig e os Fir Domnann. Slainge levou à costa de Inber Slainge um quinto dos Gaileoin; Rudraige aportou em Tracht Rudraige em Ulster; e Genann em Inber Domnann. O vento esfriou, e a tempestade levou Gann e Sengann até que eles aportarem em Inber Douglas, onde Corcamruad e Corcabaisginn se encontraram.
16.Ali eles aportaram e esse é o primeiro lugar onde ovelhas foram trazidas à Irlanda, e Morro das Ovelhas é seu nome.
Foi no Sábado, no primeiro dia de Agosto, que Slainge aportou em Inber Slainge; Gann e Genann aportaram em Inber Domnann na Sexta-feira, e Rudraige e Senngan em Tracht Rudraige na Terça-feira. Os últimos estavam ansiosos sobre se os Fir Boig haviam ou não alcançado a Irlanda ou não, e mandaram mensageiros por toda a Irlanda para reunir todos aqueles que haviam chegado à Irlanda em um lugar, isso é, a Fortaleza dos Reis de Tara. Todos eles lá se reuniram. 'Nós agradecemos aos deuses', disseram eles, 'por nosso retorno a ti, Irlanda. Que o país seja dividido igualmente entre nós. Tragam aqui o sábio Fintán, e que a Irlanda seja dividida de acordo com sua decisão.'
17.Foi então que Fintán fez cinco porções da Irlanda. De Inber Colptha a Comar Tri nUisce foi dada a Slainge, filho de Dela, e seus mil homens. A porção de Gann era de Comar Tri nUisce a Belach Conglais, a de Sengann de Belach Conglais a Limerick. Gann e Sengann tinham, assim, os dois Munsters. Genann foi posto sobre Connacht, e Rudraige sobre Ulster. O poeta assim descreve a divisão:
'No Sábado, um augurio de prosperidade, Slainge alcançou a nobre Irlanda; sua corajosa carreira começou em Inber Slainge.
Na sombria Inber Douglas os dois navios de Gann e Sengann tocaram a gloriosa terra.
Rudraige e o próspero Genann aportaram na Sexta-feira. Esses eram todos eles, e eles eram os cinco reis.
De Inber Colptha a Comar Tri nUisce Fintán fez uma divisão; essa era a porção de Slainge das lanças. Sua hoste era de mil homens.
De Comar Tri nUisce à famosa Belach Conglais era o quinto do curandeiro Gann. Ele tinha uma companhia de mil homens.
Para Sengann, pensamos, foi dado de Belach a Limerick. Ele era o chefe de mil homens quando o conflito ameaçou.
Genann era o rei absoluto de Connacht ao Maigue. O heroico Rudraige era rei de Ulster, seus eram dois mil homens na hora da batalha.
Rudraige e Sengann das lanças eram, isso é certo, os chefes dos Fir Boig. Os Gaileon seguiam glorioso Slainge. Um bom rei era ele que tinha uma hoste mais numerosa. Eles entraram na Irlanda pelo sul, como Deus achou apropriado.
18.As esposas desses cinco chefes eram Auaist, Liben, Cnucha, Edar, e Fuat, como o poeta diz:
'Fuat era a esposa de Slainge como vocês sabem, Edar do guerreiro Gann, Auaist de Sengann das lanças, Cnucha do belo Genann.
Liben era a esposa de Rudraige o Vermelho – eles faziam uma agradável companhia em visita. De qualquer modo, quanto a Rudraige, o rei dos feitos realizados, eu ouvi que sua esposa era Fuat.'
19.Os Firbolg ocuparam a Irlanda e foram mestres dela por trinta anos.
20.Quanto às Tuatha De Danann, eles prosperaram até que sua fama se espalhou sobre as terras do mundo. Eles tinham um deus da magia seu, Eochaid Ollathir, chamado o Grande Dagda, pois ele era um excelente deus. Eles tinham bravos e duros chefes, e homens proficientes em cada arte; e eles decidiram ir para a Irlanda. Então partiram daqueles audaciosos chefes, representanto a perícia militar do mundo, e a habilidade e aprendizado da Europa. Eles vieram das ilhas do norte a Dobur e Indobur, a S... e ao poço de Genann. Ali eles permaneceram por quatro anos, e na sua chegada à Irlanda, Nuada, filho de Echtach, era rei sobre eles.
Então esses guerreiros reuniram suas frotas em um lugar até que eles tinham trezentos navios ali. Então, seus profetas, Cairbre, Aed, e Edan perguntaram aos chefes da hoste em qual navio eles navegariam, recomendando o de Fiachra. Os chefes aprovaram e foram a bordo. Então eles partiram, e após três anos e três dias e três noites, aportaram na ampla Tracht Mugha em Ulster, na Segunda-feira da primeira semana de Maio.
Agora sobre a chegada das Tuatha De Danann na Irlanda, uma visão foi revelada em um sonho a Eochaid, filho de Erc, alto rei da Irlanda. Ele ponderou sobre ela com muita ansiedade, estando cheio de surpresa e preplexidade. Ele disse ao seu mago, Cesard, que ele havia visto uma visão. 'O que era a visão ?' perguntou Cesard. 'Eu vi um grande bando de pássaros negros,' disse o rei, 'vindo das profundezas do Oceano. Eles pousavam sobre nós, e lutavam com o povo da Irlanda. Eles traziam confusão sobre nós, e nos destruiam. Um de nós, eu penso, atingia o mais nobre dos pássaros e cortava uma de suas asas. E agora, Cesar, utilize sua habilidade e conhecimento, e nos diga o significado da visão.' Cesard o fez, e por meios de rituais e uso de sua ciência o significado da visão do rei lhe foi revelada; e ele disse.
'Eu tenho pressentimentos para você: guerreiros estão vindo através do mar, mil herois cobrindo o oceano; navios pintados se baterão sobre nós; todos os tipos de morte eles anunciam, uma pessoa versada em cada arte, um feitiço mágico; um espirito maligno virá sobre você, sinais para você se perder (?);... eles serão vitoriosos em cada embate.'
21.'Essa,' disse Eochaid, ' é a profecia da vinda à Irlanda de inimigos de países distantes.'
22.Quanto às Tuatha De Danann, eles todos chegaram à Irlanda, e imediatamente destruiram e queimaram todos os seus navios e barcos. Então eles partiram para as Colinas Vermelhas de Rian em Brefne, no leste de Connacht, onde eles pararam e acamparam. E finalmente seus corações e mentes estavam cheios com o contentamento de que eles tinham alcançado a terra de seus ancestrais.
23.Então foi reportado aos Fir Boig que aquela companhia tinha chegado à Irlanda. Que era a mais impressionante e deleitosa companhia, os mais belos de forma, os mais distintos em equipamentos e aparatos, e em sua habilidade na música e instrumentos, os mais dotados em mente e temperamento que já tinham vindo à Irlanda. Essa era também a companhia mais corajosa e que inspirava mais horror e medo e pavor, pois as Tuatha De excediam a todos os povos do mundo em sua proficiencia em todas as artes.
24.'Isso é uma grande desvantagem para nós,' disseram os Fir Boig, ' que não temos nenhum conhecimento ou registro de onde tal hoste viera, ou onde eles pensam em se fixar. Que Sreng parta para visita-los, pois ele é grande e feroz, e corajoso para espiar hostes e interrogar estranhos, e rude e aterrorizante de observar.' Então Sreng se levantou e pegou seu forte escudo curvo marrom-avermelhado, seus dois dardos de hastes ríspidas, sua espada causadora de mortes, seu belo elmo de quatro lados, e sua pesada clava de ferro, e tomou seu caminho para a Colina da Chuva.
As Tuatha De viram um enorme homem terrível se aproximando deles. 'Ali vem um homem totalmente sozinho,' disseram eles. 'É por informação que ele vem. Vamos mandar alguém para falar com ele.'
Então Bres, filho de Elatha, saiu do acampamento para inspeciona-lo. Ele carregava consigo seu escudo e sua espada, e suas duas grandes lanças. Os dois homens se aproximaram um do outro até que estavam à distancia de fala. Cada um olhou atentamente para o outro, sem dizer uma palavra. Cada um estava impressionado com as armas e a aparência do outro; Sreng se impressionou com as grandes lanças que ele via, e apoiou seu escudo no chão à sua frente para que pretegesse seu rosto. Bres, também, manteve o silêncio, e segurou seu escudo à sua frente. Então, eles cumprimentaram um ao outro, pois falavam a mesma língua – a origem sendo a mesma – e explicaram um ao outro, como se segue, quem eram eles e seus ancestrais.
'Minha carne e minha língua foram felicitados por sua agradável e bela linguagem, quando você recontou as genealogias de Nemed em diante.'
'Por origem, nossos povos são como irmãos; nossa raça e povo descende de Semeon.'
'Essa é a hora correta para ter isso em mente, se nós somos, em carne e sangue, a mesma distinta raça que vós.'
'Abaixe seu orgulho, que sua coragem escureça, esteja consciente de seu parentesco, evite a destruição de seus próprios homens.'
'Altivo é nosso temperamento, nobre nosso orgulho e ferocidade contra nossos inimigos; você não irá abate-los.'
'Nossos dois povos se encontrarão, será uma reunião onde muitos serão esmagados; que ele traga entretenimento.' 'Não será ele a nos distrair.'
25.'Remova seu escudo da frente de seu corpo e rosto,' disse Bres, 'para que eu possa dar à Tuatha De um relato de sua aparência.' 'Eu o farei,' disse Sreng, ' pois foi por medo da lança afiada que carrega que coloquei meu escudo entre nós.' Então ele ergueu seu escudo. 'Estranhas e venenosas,' disse Bres, 'são essas lanças, se as armas de todos vocês são semelhantes a essa. Mostre-me suas armas.' 'Eu irei,' disse Sreng; e então ele desamarrou e descobriu seus dardos de ríspidas hastes. 'O que você pensa dessas armas ?' ele disse. 'Eu vejo,' disse Bres, 'enormes armas, de pontas amplas, firmes e pesadas, poderosas e afiadas.'
'Triste para ele que elas devam destruir, triste para ele que elas devam voar, contra quem elas devem ser lançadas; elas serão instrumentos de opressão. Morte há em seus poderosos golpes, destruição em apenas um movimento deles; feridas são seus duros movimentos; esmagamento é o horror delas.'
26.'Como vocês os chamam ?' disse Bres. 'Dardos de batalha são eles,' disse Sreng. 'Eles são boas armas,' disse Bres, 'corpos feridos eles significam, sangue jorrando, ossos quebrados e escudos estilhaçados, cicatrizes certas e verdadeira praga. Morte e mancha eterna eles trazem, afiadas, inamistosas e mortais são suas armas, e há fúria por fratricidio nos corações das hostes de cujas armas eles são. Vamos fazer um pacto e um acordo.' Eles o fizeram. Cada um se aproximou do outro, e Bres perguntou: 'Onde você passou a última noite, Sreng ?' 'No abençoado coração da Irlanda, na Fortaleza dos Reis em Tara, onde estão os reis e príncipes dos Fir Boig, e Eochaid, Ard Righ da Irlanda. E tu ? De onde vieste ?' 'Da colina, do apinhado campo ali, na costa da montanha, onde estão as Tuatha De e Nuada, seu rei, que vieram do norte do mundo, em uma nuvem de bruma e uma chuva mágica para a Irlanda e a terra do oeste.' (De qualquer modo, ele não acreditou que fora assim que eles vieram) Foi então que Sreng disse: 'Eu tenho uma longa jornada e é a hora que tenho de ir.' ' Vá então,' disse Bres, 'e aqui há uma das duas lanças que eu trouxe comigo. Pegue-a como um exemplo das armas das Tuatha Dé.' Sreng deu um de seus dardos para Bres, como um exemplo das armas dos Fir Boig. 'Diga aos Fir Boig,' disse Bres, ' que eles podem dar ao meu povo ou batalha ou metade da Irlanda.' 'Por minha palavra,' disse Sreng, ' eu preferia lhes dar metade da Irlanda a enfrentar essas armas.' Eles partiram em paz após fazerem um acordo de amizade um com o outro.
27.Sreng pegou seu caminho para Tara. Ele foi perguntado por impressões do povo com o qual ele tinha ido falar; e ele contou sua história: 'Bravos são seus soldados,' ele disse, 'viris e habilidosos são seus homens, sangrentos e certos de batalha são seus heróis, grandiosos e fortes seus escudos, muito afiadas e de duras hastes são suas lanças, e rigídas e largas são suas espadas. Difícil é lutar com eles; 'é melhor fazer uma clara divisão da terra, e lhes dar metade da Irlanda, como eles desejam.' 'Não daremos isso, sem dúvida,' disseram os Fir Boig, 'pois se o fizermos, a terra será toda deles.'
28.Bres alcançou seu acampamento, e foi perguntado por uma descrição do homem com o qual ele havia falado, e de suas armas. 'Um homem grande, poderoso, feroz,' ele disse, ' com armas vastas e surpreendentes, com uma vontade firme e truculenta, sem reverência ou medo por nenhum homem.' As Tuatha Dé Danann disseram uns aos outros, 'Não vamos ficar aqui, mas ir para o Oeste da Irlanda, para algum lugar fortificado, e lá enfrentaremos quem quer que seja.' Então a hoste viajou para Oeste, pelas planicies e enseadas, até que chegou a Mag Nia, e ao fim da Colina Negra, que é chamada Sliabh Belgadain. Na sua chegada, eles disseram: 'Esse é um excelente local, forte e impenetrável. Daqui nós lutaremos nossas guerras, e faremos nossos ataques, aqui vamos criar nossas batalhas e hostes.' O acampamento é citado pelo poeta nessas linhas:
'Da Colina de Belgadain à Montanha – lisa é a montanha ao redor do qual nos engajamos em nossas contendas. Do seu cume, as Tuatha De tomaram a Irlanda.'
29.Foi então que Macha e Badb e Morrighan foram à Colina da Tomada dos Reféns e à Colina da Invocação das Hostes em Tara,e lançaram chuvas de feitiçaria e nuvens compactas de névoa e uma furiosa chuva de fogo, com um despejo de sangue vermelho sobre as cabeças dos guerreiros; e elas não permitiram aos Fir Boig nem descanso nem paz por três dias e três noites. 'Pobre,' disseram os Fir Boig, 'é a feitiçaria dos nossos feiticeiros, que não pode nos proteger da feitiçaria das Tuatha Dé.' 'Mas nós protegeremos vocês,' disseram Fathach, Gnathach, Ingnathach, e Cesard, os feiticeiros dos Fir Bolg, e eles pararam a feitiçaria das Tuatha Dé.
30.Então os Fir Bolg se reuniram, e seus exercitos e hostes foram a um lugar de encontro. Ali se encontraram os reis provinciais da Irlanda. Primeiro vieram Sreng e Semne e Sithbrugh, os três filhos de Sengann, com o povo das provincias de Curói. Também foram Esca, Econn, e Cirb, com as hostes das provincias de Conchobar; os quatro filhos de Gann com as hostes das provincia de Eochaid filho de Luchta; os quatro filhos de Slainge com o exército da provincia de Gaileoin; e Eochaid, o Alto-Rei, com as hostes de Connacht. Os Fir Bolg, contando onze batalhões, então marcharam para a entrada de Mag Nia. As Tuatha Dé, com sete batalhões, tomaram sua posição na extremidade oeste da planície. Foi então que Nuada propôs às Tuatha De mandar enviados aos Fir Bolg: 'Eles precisam ceder metade da Irlanda, e nós dividiremos a terra entre nós.' 'Quem serão nossos enviador ?' o povo perguntou. 'Nossos poetas,' disse o rei, nomeando Cairbre, Ai e Edan.
31.Então eles partiram e chegaram à tenda de Eochaid, o Alto-Rei. Depois que eles haviam sido presenteados com dádivas, eles foram perguntados pela razão de sua vinda. 'Isso é porque viemos,' eles disseram, ' para pedir a divisão da terra entre nós, uma divisão igual da Irlanda.' 'Os nobres dos Fir Bolg ouviram isso ?', disse Eochaid. 'Nós ouvimos,' eles responderam, ' mas não concederemos o seu pedido até o final do mundo.' 'Então,' disseram os poetas, 'quando vocês pensam em batalhar ?' 'Alguma espera é pedida,' disseram nos nobres Fir Bolh, ' pois nós temos que preparar nossas lanças, consertar nossas armaduras, moldar nossos elmos, afiar nossas espadas, e preparar vestimentas adequadas.' Foram trazidos a eles homens para arranjar essas coisas. 'Preparem,' disseram eles, 'escudos para uma décima, espadas para uma quinta, e lanças para uma terça parte. Vocês precisam ter cada utensilio que possamos pedir em qualquer lado.' 'Nós,' disseram os enviados das Tuatha Dé aos Fir Bolg, 'devemos fazer suas lanças, e vocês precisam fazer nossos dardos.' As Tuatha Dé então receberam hospitalidade até que tudo estava feito. (De qualquer modo, embora tenha sido dito aqui que os Fir Bolg não tinham lanças, essas tinham sido feitas por Rindal, avô do então rei). Então eles providenciaram um armistício até que as armas chegassem, até que o equipamento estivesse pronto, e eles estivessem preparados para a batalha.
32.Os druidas voltaram às Tuatha Dé e contaram sua história do começo ao fim, como os Fir Bolg não partilhariam a terra com eles, e lhes recusaram favores ou amizade. As notícias encheram as Tuatha Dé com consternação.
33.Então Ruad com vinte e sete filhos do corajoso Mil correram à oeste para a extremidade de Mag Nia para oferecer uma competição de arremesso às Tuatha Dé. Um número igual veio para enfrenta-los. O desafio começou. Eles deram muitos golpes em pernas e braços, até que seus ossos se quebraram e feriram, e caíram estendidos na turfa, e o desafio terminou. O Cairn do Desafio é o nome do cairn onde eles se enfrentaram, e Glen Came Aillem o lugar onde eles foram enterrados.
34.Ruad se voltou para o leste, e contou sua história para Eochaid. O rei estava feliz pela morte dos jovens soldados das Tuatha Dé, e disse para Fathach, “Vá para o oeste, e pergunte aos nobres das Tuatha De como a batalha deve ser lutada amanhã - se é para ser por um dia ou por muitos.” O poeta foi e pôs a questão para os nobres das Tuatha De, isso é, Nuada, o Dagda, e Bres. “O que nós propomos,” eles disseram, “é combatermos com números iguais em ambos os lados.” Fathach voltou e reportou aos Fir Bold a escolha das Tuatha De. Os Fir Bold estavam deprimidos, pois eles não gostaram da escolha das Tuatha De. Eles decidiram chamar por Fintan para ver se ele poderia lhes dar algum conselho. E Fintán veio a eles.
Os Fir Bolg tinham entrincheirado um grande forte. (Ele era chamado o Forte das Matilhas, pelas matilhas de cães que predavam sobre os corpos dos mortos após a batalha, ou Forte dos Poços Sangrentos, pelos poços de sangue que cercavam os feridos quando as pessoas vinham para vê-los.) Eles fizeram um Poço de Cura para curar seus guerreiros de suas feridas. Ele foi cheio com ervas. Outro forte entricheirado foi feito pelas Tuatha De.(Ele era chamado Forte dos Inícios, pelos inícios ali direcionados para a batalha). Eles cavaram um Poço de Cura para curar suas feridas.
Quando esses trabalhos estavam terminados, Cirb perguntou: “De onde viestes, para onde vão ? O cuidado da batalha de amanhã seja vosso. Eu irei liderar o ataque com Mogarn e seu filho Ruad, Laige e seu pai Senach,” “Nós os enfrentaremos com quatro batalhões,” foi a resposta.
35.Seis semanas do verão, metade do quarto, chegou ao dia combinado da batalha. As hostes se ergueram naquele dia com o primeiro brilho da luz do sol. Os perfeitamente forjados escudos pintados estavam içados nas costas dos bravos guerreiros, o firmes lanças temperadas e dardos de batalha estavam apertados nas mãos direitas dos heróis, junto com as brilhantes espadas que faziam duelos ofuscantes com luzes como brilhantes raios de sol cintilados nos bosques escupidos de espadas. Assim, as firmes companhias em formação, se moveram pela força da paixão de seus corajosos comandantes, avançando em direção a Mag Nia para dar batalha às Tuatha De. Foi então que o poete dos Fir Bolg, Fathach, foi à frente para descrever sua fúria e espalhar a notícia dela. Ele ergueu e plantou firmemente no meio da planície um pilar de pedra, no qual ele se recostou. Esse foi o primeiro pilar posto na planicie, Pilar de Fathach foi seu nome daí em diante. Então Fathach em total angústia derramou dilúvios de ferventes lágrimas ferventes, e disse:
“Com que pompa eles avançam ! Sobre Mag Nia eles marcham com poder animador. Assim as Tuatha De que avançam, e os Fir Bolg das lâminas decoradas.
“A Badb Vermelha vai agradecer pelos combates que eu vejo. Muitos serão os seus corpos talhados no leste após sua visita à Mag Tured.
“... serão a hoste após a partida dos guerreiros de que falo. Muitas cabeças serão feridas com pompa e vigor.”
36.As Tuatha formaram uma compacta hoste bem armada, liderada por guerreiros lutadores e providos com armas mortais e escudos rígidos. Cada um deles se pressionou sobre seu vizinho com a borda de seu escudo, a haste de sua lança, ou a guarda de sua espada, tão fortemente que eles feriam uns aos outros. O Dagda começou o ataque sobre o inimigo por cortar seu caminho através deles a oeste, abrindo um caminho para cento e cinquenta. Ao mesmo tempo Cirb causou um massacre sobre as Tuatha De, e devastou suas fileiras, abrindo um caminho para cento e cinquenta através deles. A batalha continuou em uma série de combates e duelos, até que, no espaço de um dia, um grande número tinha sido destruido. Um duelo teve lugar entre Aidleo das Tuatha De e Nerchtu dos Fir Bolg. As juntas rígidas de seus escudos foram rasgadas, as espadas separadas de suas guardas, e rebites das lanças perdidos. Aidleo tombou pelas mãos de Nerchtu.
37.Ao fim do dia, as Tuatha De estavam derrotadas e retornaram ao seu campo. Os Fir Bolg não os perseguiram pelo campo de batalha, mas retornaram animados para seu próprio campo. Cada um deles levou com eles à presença de seu uma pedra e uma cabeça, e fizeram um grande cairn com elas. As Tuatha De ergueram um pilar de pedra chamado Pilar de Aidleo, pelo primeiro deles a ser morto. Seus curandeiros então se reuniram. Os Fir Bolg também tinham seus curandeiros levados com eles. Eles levaram ervas curatibas, e as esmagaram e moeram na superfície da água do poço, e as preciosas águas curativas se tornaram espessas e esverdeadas. Seus feridos foram colocados dentro do poço, e imediatamente saíam inteiros.
38.Na manhã seguinte, Eochaid, o Alto-Rei, foi para poço sozinho para lavar suas mãos. Enquanto ele o fazia, viu sobre ele três belos e soberbos homens armados. Eles o desafiaram para o combate. “Me dêem tempo,” disse o rei, “para pegar minhas armas.” “Nós não lhe daremos nem um momento para isso; o combate deve ser agora.” Enquando o rei estava nessa dificuldade, um jovem homem ativo apareceu entre ele e seus inimigos, e se virando para eles, disse: “Vocês terão combate de mim, no lugar do rei.” Eles ergueram suas mãs simultaneamente, e lutaram até que todos os quatro cairam juntos. Os Fir Bolg vieram após o combate estar terminado. Eles viram os homens mortos, e o rei lhes disse como eles haviam vindo sobre ele, e como o campeão solitário havia lutado com eles em seu lugar. Cada homem dos Fir Bolg trouxe uma pedra para o poço por ele, e construiram um grande cairn. O Cairn do Campeão é o nome do cair, e a colina é chamada a Colina dos Três. Os estranhos eram Oll, Forus e Fir, três curandeiros, irmãos de Diancecht, e eles haviam vindo para espionar os curandeiros dos Fir Bolg, quando eles viram Eochaid lavando o rosto.
39.Os batalhões das Tuatha De estavam organizados sobre a planície do leste, e os Fir Bolg vieram para a planície contra eles do oeste. Os chefes que foram na frente das Tuata De naquele dia foram Ogma, Midir, Bodb Dearg, Diancecht, e Aengaba da Noruega. As mulheres, Badb, Macha, Morrigan e Danann ofereceram companhia a eles. Contra eles vieram os Fir Bolg, Mella, Esa, Ferb, e Faebur, todos filhos de Slainge. Fortes, poderosos golpes foram dados pelos batalhões em cada lado, e as bordas dos escudos foram quebradas quando elas vigorosamente enfrentavam os golpes, enquanto os homens em armas mostravam sua fúria, e os guerreiros mostravam sua coragem. Suas lanças eram torcidas pela luta continua; nos combates manuais, as espadas quebravam nos ossos despedaçados; os aterrorizantes brados de batalha dos veteranos eram afogados na multidão de gritos.
Vigorosamente, os jovens se viram para o número de ataques ao seu redor, em cada lado. Os guerreiros se encolhiam com os encontros das espadas, a força do peso, e a fúria da queda. Bem calculado era a defesa ali, e galante a guarda, e rápido os golpes dados. Nemed, filho de Badrai, se aproximou do flanco dos Fir Bolg. Então os homens o cercaram, e no conflito, o filho de Eochaid, Slainge, o Belo, foi em sua direção. Os dois guerreiros atacaram um ao outro. Houve distensão de lanças e tremor de espadas e estilhaças de escudos e golpear de corpos. No entando, Nemed caiu pelas mãos de Slainge; eles cavaram sua sepultura e ergueram um pilar para ele, e a Pedra de Nemed é seu nome até hoje. Quatro filhos de Slainge, filho de Dela, entraram na luta contra as Tuatha De. No lado das Tuatha De, os quatro filhos de Cencal lutaram contra eles. Eles enfrentaram uns aos outros até que os filhos de Cencal caíram perante os filhos de Slainge. Esses então foram enfrentados pelos cinco filhos de Lodan, o Veloz, e os cinco filhos de Lodan tombaram por suas mãos. Aengaba da Noruega começou a dobrar o inimigo e confundir suas linhas. Ruad ouviu isso e correu para a luta. Os três filhos de Dolad o enfrentaram, e ele despejou sua raiva sobre eles, e eles caíram perante ele. De outro quarto da batalha, os três filhos de Telle o enfrentaram, e foram mortos por ele da mesma forma. Lamh Redolam e Cosar Conaire foram mortos por Slainge, o Belo, ao lado do lago. Desses dezessete, as lápides foram postas ao lado do lago, pois eles tinham recuado até ali.
40.Ruad e Aengaba da Noruega se enfrentaram; eles ergueram seus escudos um contra o outro, e continuaram ferindo um ao outro até que Aengaba tinha vinte e quatro ferimentos inflingidos por Ruad. No final, Ruad cortou sua cabeça, e após isso continuou lutando até o anoitecer.
41.Ogma, filho de Ethliu, fez um ataque sobre a hoste, e seu rastro foi marcado por poças de sangue rubro. Do lado leste, Cirb entrou na luta e fez um massacre sobre as hostes, e trezentos das Tuatha caíram perante ele.
42.Quando a noite caiu, os Fir Bolg recuaram pelo campo de batalha. De qualquer modo, cada um levou uma cabeça e uma pedra para Eochaid, seu rei. “Isso é o que vocês conseguiram hoje ?” disse o rei, “Sim,” disse Cirb, “mas isso não será de lucro para eles.”
43.No dia seguinte foi a vez de Sreng, Semne, e Sithbrug, juntos com Cirb, de liderar os Fir Bolg; Eles se levantaram cedo. Uma ofuscante cobertura de escudos, e uma rigida floresta de dardos eles fizeram sobre si, e os apoios de batalha então se moveram adiante. “Com quanta pompa, “ eles disseram, “essas tropas entram na planície e vem em nossa direção.” E foi então que a planície ganhou o nome de Mag Tured, a Planície dos Apoios.
44.As Tuatha De perguntaram quem deveria lidera-los naquele dia. “Eu irei,” disse o Dagda, “pois em mim vocês tem um excelente deus;” e então, ele foi adiante com seus filhos e irmãos. Os Fir Bolg estacionaram firmemente suas formações e colunas, e marcharam seus batalhões ao nível de Mag Nia (que, dali em diante, foi chamada de Mag Tured, a Planície dos Apoios). Cada lado então apareceu para o outro. Sreng, filho de Sengann, começou a desalojar as hostes do inimigo.O Dagda foi a romper os batalhões e devastar as hostes e desalojar suas posições e a força-los de suas posições. Cirb, filho de Buan, entrou no combate pelo leste e massacrou bravos homens e altivos soldados. O Dagda ouviu a investida de Cirb, e Cirb ouviu os ressoantes golpes do Dagda. Eles surgiram um para o outro. Furiosa foi a luta quando as boas espadas fenderam, heroicos os herois quando eles mantiveram a infantaria, e responderam aos massacres. No final, Cirb tombou perante os ressoantes golpes do Dagda.
Sreng, filho de Sengann estava pressionando as hostes de seus lugares quando ele chegou aos três filhos de Cairbre Cas das Tuatha De, e aos três filhos de Ordan. O filhos de Cairbre com suas três colunas caíram perante os filhos de Ordan, quando Sreng guiou as hostes. O inimigo caiu perante ele a cada lado, e a fúria do combate cresceu por trás das linhas.
45.Após a que da Cirb os Fir Bolg recuaram para seu campo. As Tuatha De não os perseguiram através do campo de batalha, mas eles levaram consigo uma cabeça e um fragmento de um pilar de pedra, incluindo a cabeça de Cirb, que foi enterrada no Cairn da Cabeça de Cirb.
46.Os Fir Bolg não estavam nem felizes nem alegres naquela noite, e quanto às Tuatha De, eles estavam entristecidos e desanimados. Mas durante a mesma noite, Fintán veio com seus filhos para se juntarem aos Fir Bolg, e isso alegrou a todos, pois valentes eram tanto ele quanto eles.
47.Nesse humor alegre a manhã os encontrou. Os sinais de seus chefes os levantaram nas vastas encostas do acampamento, quando eles começaram a encorajar um ao outro para enfrentar o perigo e o risco. Eochaid, o Alto-Rei, com seu filho, Slainge o Belo, e os soldados e chefes de Connaught, vieram para se juntar a eles. Os três filhos de Sengann com as hostes da provincia de Curoi, tomaram seu lugar no flanco da linha. Os quatro filhos de Gann com os guerreiros da província de Eochaid marcharam para o centro do mesmo exército. Os filhos de Buan, Esca e Egconn se uniram com os da provincia de Conchobar no outro flanco. Os quatro filhos de Slainge com a hoste dos Gaileoin trouxeram a retaguarda do exército. Ao redor de Eochaid, o Alto-Rei, eles fizeram uma barreira de valorosos bravos de vermelho sangue ansiosos por batalha, a garbosos cavaleiros e as tropas mais confiáveis do mundo. Os treze filhos de Fintan, homens provados na corajosa resistência do cinflito, foram trazidos para onde estava o rei. Uma massa flamejante era a batalha naquele dia, cheia de cores mutantes, muitos feitos e mãos sangrentas, de movimentos de espada e combates individuais, de lanças e espadas cruéis e dardos; feroz ela era, e sem misericórdia, e terrivel, travada e apertada, furiosa e vasta, mutável e fluente com muitas aventuras. Os Fir Bolg, como é dito, marcharam corajosamente e vitoriosamente ao oeste, para a borda de Mag Tured, até que eles chegaram aos firmes pilares e apoios de valor entre eles e as Tuatha De. As passionais Tuatha De fizeram um impetuoso ataque furioso em companhias juntas com suas armas venenosas; e eles formaram uma poderosa falange sangrenta sob o abrigo dos fortes escudos de bordas vermelhas, ardentes, prateados. Os guerreiros começaram o conflito. Os flancos e os lados da vanguarda estavam cheios de veteranos grisalhos rápidos para ferir; homens idosos foram colocados para ajudar e atender os movimentos desses veteranos; e próximos a esses venenosos guerreiros resolutos foram colocados jovens de armas. Os campeões e seus servos foram colocados atrás dos jovens. Seus profetas e sábios se posicionaram sobre os pilares e locais vantajosos, empregando sua feitiçaria, enquanto os poetas tomavam nota dos feitos e escreviam contos deles. Quanto a Nuada, ele estava no centro da luta. Ao seu redor se reuniram seus príncipes e guerreiros apoiadores, com os doze filhos de Gabran da Scitia, sua guarda pessoal. Eles eram Tolc, Trenfer, Trenmiled, Garb, Glacedh, Gruasailt Duirdri, Fonnam, Foirisem, Teidm, Tinnargain e Tescad. Não haveria nenhuma alegria na vida para quem eles causassem um ferimento sangrento (até que eles mataram os filhos de Fintán e os filhos de Fintán os mataram). Assim eles realizaram seu ataque após amarrarem a seus corpos pedras de bordas rispidas com fechos de ferro; e fizeram seu caminho para o lugar apontado para a batalha. Nesse momento Fathach, o poeta de Fir Bolg, foi ao seu pilar, e quando ele viu os exércitos do leste e oeste, disse:
“Velozmente avançam as hostes marchando sobre Mag Nia, seu poder irresistivel; essas Tuatha De Danann que avançam e os Fir Bolg das palavras ditas.
“Eu penso que os Fir Bolg vão perder alguns de seus irmãos ali – muitos serão os corpos e cabeças e flancos rasgados na planície.
“Mas embora eles caiam por todo o lado, feroz e aguçado será seu ataque, embora eles caiam, eles farão outros cair, e herois serão derrubados por seu impetuoso valor.
“Tu subjugaste os Fir Bolg; eles cairão ali ao lado de seus escudos e laminas; eu não confiarei na força de ninguém pelo tempo que eu tenha de estar na tempestuosa Irlanda.
“Eu sou Fathach, o poeta; fortemente a tristeza se apossou de mim, e agora que os Fir Bolg se foram, eu devo me render ao veloz avanço do desastre.”
48.As fúrias e monstros e bruxas do julgamento gritaram tão alto que suas vozes foram ouvidas nas rochas e quedas d'água e nas cavernas da terra. Foi como o aterrorizante grito agonizante do último terrivel dia quando a raça humana partirá de todo esse mundo. Na vanguarda das Tuatha De avançaram o Dagda, Ogma, Alla, Bres, e Delbaeth, os cinco filhos de Elatha, junto com Bres, neto de Net, o Fomorian, Aengus, Aed, Cermad o Belo, Midir, Bodb Derg, Sigmall Abartach, Nuada o Alto-Rei, Brian, Iuchar e Iucharba, os três filhos de Turenn Bigrenn, Cu, Cian e Cethenn, os três filhos de Cainte, Goibnenn o Ferreiro, Lucraid o Forjador, Credne o Artífice, Diancecht o Curandeiro, Aengaba da Noruega, as três rainhas, Ere, Fotla, e Banda, e as três feiticeiras, Badb, Macha e Morrighan, com Bechuille e Danann, suas duas madrinhas. Eles fixaram seus pilares no chão para evitar que qualquer um fugisse até que as pedras voassem. Eles golpearam uns aos outros com suas lanças afiadas, até que as sólidas hastes estavam torcidas pelas tremores das vitmas em suas pontas. Os gumes das espadas se viravam nos escudos cobertos de limo. As laminas curvadas eram temperadas nos poços ferventes de sangue nas coxas dos herois. Alto era o cantar das lanças quando elas encontravam os escudos, alto o som e a confusão dos guerreiros quando eles golpeavam corpos e quebravam ossos no caminho. Rios de sangue fervente tomaram a visão dos olhos cinzentos dos guerreiros resolutos. Foi então que Bres fez um ataque sobre o exército Fir Bolg, e matou cento e cinquenta deles. Ele acertou nove golpes no escudo de Eochaid, o Alto-Rei, e Eochaid, por sua vez, lhe devolveu nove feridas. O filho de Sengann, Sreng, virou seu rosto para o exército das Tuatha De, e matou cento e cinquenta deles. Ele acertou nove golpes no escudo do Alto-Rei Nuada, e Nuada lhe devolveu nove ferimentos.
Cada um deu terriveis golpes de morte, fazendo grandes ferimentos sangrento na carne do outro, até que sob suas laminas, escudos e lanças entalhadas, cabeças e elmos se quebraram como os frágeis ramos cortados com machadinhas usadas pelos fortes braços dos lenhadores. Herois oscilavam de um lado para outro, cada um cercando o outro enquanto buscavam a oportunidade para um golpe. Os campeões de batalha se ergueram de novo sobre as bordas de seus escudos brilhantes. Sua coragem crescia, e os valentes homens virulentos firmes como um arco. Suas mãos iam com suas espadas, e eles rasgavam rapidamente sobre as cabeças de guerreiros, partindo seu elmos. Por um momento, eles retrocederam as fileiras do inimigo de seus lugares, e à visão deles as hostes ondearam como a água que vai muito além de seus lados por uma chaleira que ferveu demais, ou a inundação que, como uma queda d'água, um exército despeja sobre os bancos de um rio, tornando-o transponivel para as tropas da retaguarda. Então, um lugar apropriado foi aberto para os chefes; os herois cederam seus lugares, e ágeis combatentes suas posições; guerreiros foram desalojados, e servos fugiram por horror a eles. Para eles foi deixada a batalha. Pesadamente a terra foi pisoteada sob seus pés até que a turfa dura ficou macia sob eles. Cada um deles inflingiu trinta ferimentos no outro. Sreng deu um golpe com sua espada em Nuada, e cortando a borda do escudo, ferindo o seu braço direito no ombro; e o braço do rei com um terço do seu escudo caiu no chão. Foi então que o Alto-Rei gritou alto por ajuda, e Aengaba da Noruega, ao ouvi-lo, entrou no combate para protege-lo. Ferozes e furiosos foram os ataques que Aengaba e Sreng fizeram um ao outro. Cada um inflingiu ao outro um número igual de ferimentos, mas eles não eram comparáveis, pois a larga lamina da lança de Sreng e sua rigida haste faziam sons mais profundos, mortais. Tão logo o Dagda ouviu a música das espadas em pressão de batalha., ele se apressou para o lugar do conflito com saltos deliberados, como o rugir de uma grande queda d'água. Sreng declinou de uma disputa com os dois guerreiros; e embora Aengaba da Noruega não cair ali, foi da violencia daquele conflito que ele morreu depois. O Dagda veio e ficou sobre Nuada e, após as Tuatha Dé realizarem conselho, ele trouxe cinquenta soldados com seus curandeiros. Eles levaram Nuada do campo. Sua mão foi erguida no lugar do rei no circulo de valor, um circulo de pedras cercando o rei, e sobre ele o sangue da mão de Nuada foi pingado.
49.As Tuatha De mantiveram o conflito intensamente e bravamente, após seu rei ter partido. Bres fez seu caminhos entre as fileiras dos Fir Bolg para vingar seu rei, e chegou ao ponto onde Eochaid estava incitando a batalha, e fortificando seus guerreiros e exortando seus herois e encorajando seus capitães e organizando seus combates. Um fez do outro seu oponente, e ferimentos foram inflingidos onde eles estavam desprotegidos. Ante a ferocidade de sua fúria e o peso de seus golpes, os soldados foram lançados à confusão. No final, Bres foi morto por Eochaid; e o Dagda, Ogma, Alla, e Delbaeth atacaram-no para vingar seu irmão. Eochaid estava incitando a batalha, juntando e encorahando seus capitães, aproximando e juntando as fileiras dos soldados, mantendo seus guerreiros firmes e resolutos. Os quatro irmãos, em sua busca por Eochaid, levaram as hostes perante eles para o lugar onde eles o ouviam incitando a batalha. Mella, Esen, Ferb e Faebur, filhos de Slainge, os enfrentaram, e cada um acertou o escudo do outro. Suas espadas se bateram, e o conflito cresceu, e os gumes das laminas curvas cortavam ferimentos sangrentos. Os quatro filhos de Slainge caíram perante os outros quatro, e as Lápides dos Filhos de Slainge é o nome do lugar onde eles foram enterrados. Os quatro filhos de Gann então entraram em fúria. Contra eles avançaram Goibnenn, o Ferreiro, Lucraid, o Soldador, Dian Cecht e Aengaba de Noruega. Horrivel era o som feito pelas armas mortais nas mãos dos campeões. Aqueles combatentes mantiveram a luta até que os quatro filhos de Gann foram mortos; e o Monte dos Filhos de Gann é o nome do lugar onde eles foram enterrados.
50.Bedg, Redg e Rinne, os três filhos de Ordan, caíram sobre as Tuatha De, e as fileiras tremeram perante seu ataque. Os três filhos de Cainte os enfretaram, mas eles se cansaram dos conflito; e o Monte dos Magos é o lugar onde eles foram enterrados.
51.Brian, Iuchar e Iucharba, os três filhos de Turenn Bigrenn, caíram sobre a hoste Fir Bolg. Eles foram opostos pelos dois filhos de Buan, e Cairbre filho de Den. Os filhos de Buan foram superados pelos filhos de Turenn Bigrenn, e as Lápides de Buan são as pedras que os cobrem, e a Tumba de Cairbre está ao lado das lápides.
52.Eochaid e seu filho, Slainge, o Belo, então se juntaram ao combate, e destruiram inumeráveis companhias das Tuatha De. “Nossos melhores homens,” disse Eochaid, “foram destruidos, nosso povo massacrado, e nos é bom ser absolvidos valorosamente.” Então eles fizeram seu caminho pelo campo de batalha uma vez mais, e curvaram homens e massacraram soldados e talharam hostes e confundiram as fileiras com seus ataques. Após esse longo esforço continuo, Eochaid foi tomado por grande fraqueza e excesso de sede. “Tragam Sreng a mim,” ele disse. Isso foi feito. “Você e Slainge, o Belo,” disse Eochaid, “precisam manter a luta até que eu vá em busca de uma bebida e lavar meu rosto, pois não posso resistir a essa sede avassaladora.” “Ela será bem mantida,” disse Slainge, “embora nós sejamos apenas uns poucos para lutar em sua ausencia.” Eochaid então saiu da batalha com uma guarda de cem dos seus soldados. As Tuatha Dé os seguiram e gritaram para eles.
53.Mas Slainge, o Belo avançou para enfrentar a hoste, e os deu batalha a eles, e evitou que seguissem o Alto-rei. Ele foi atacado pelo poderoso Lugaid, filho de Nuada, e os dois lutaram uma feroz batalha cruel e enérgica, no qual houveram feridas e chagas e escorno talhados. Tão logo os outros viram que Slainge prevalecia, deram apoio a Lugaid. Lugaid e Slainge caíram juntos, e a Sepultura de Lugaid é o lugar onde Lugaid foi enterrado, e Monte de Slainge é o monte onde eles enterraram Slainge.
54.Quando os magos das Tuatha De viram como o rei da Irlanda estava sofrendo de uma sede consumidora, eles esconderam deles todos os riachos e rios da Irlanda até que ele chegou ao córrego de Eothail. Três filhos de Nemed, filho de Badrai, o seguiram, com cento e cinquenta homens. Eles lutaram sobre o córrego, e um número caiu a cada lado. Eochaid e os filhos de Nemed se enfrentaram em combate. Venenosos em batalha eram os filhos de Nemed, e treinado em lutar contra revezes era Eochaid. Eles lutaram até que seus corpos estivessem rasgados e seus peitos abertos com os poderosos ataques. Irresistível era o ataque do rei enquanto ele cortava sem parar os seus oponentes, até que ele e os três filhos de Nemed caíram. O Cairn de Eochaid é o cairn onde Eochaid foi enterrado (ele também é chamado de Cairn de Eothail), e as Lápides dos Filhos de Nemed estão no lado oeste do córrego.
55.Quanto a Sreng, filho de Sengann, ele continuou lutando por um dia e uma noite após os seus companheiros, até que no fim nenhum lado era capaz de atacar o outro. Seus velozes golpes ficaram mais fracos por todo o massacre e seus espiritos caíram por todos os seus males, e sua coragem desvaneceu por toda a vastidão de seus desastres; e então eles se separaram. As Tuatha De se retiraram para as terras de Cenn Slebe e para as encostas do Glen de Sangue, e para o Monte das Lágrimas. Então o Dagda disse:
“Soldados mataram sem medida, muitas feridas em heróis; espadas cruéis rasgaram seus corpos. Os Fir Bolg superaram vocês (?)... sobre suas terras.”
56.“Quais foram suas perdas nessa última batalha ?” disse Nuada ao Dagda. O Dagda lhe disse nessas palavras:
“Eu lhe direi, nobre Nuada, as histórias da terrivel batalha, e após isso, suas calamidades e desastres eu contarei, oh filho de Echtach.
“Nela caíram nossos nobres perante a violência dos Fir Bolg; tão grandes são nossas perdas que poucos sabem delas.
“Bres, filho de Elatha, um guerreiro como uma torre, atacou as fileiras dos Fir Bolg, uma gloriosa luta, e matou cento e cinquenta deles.
“Ele deu nove golpes – selvagem foi o feito – no grande escudo de Eochaid, e Eochaid devolveu a Bres nove golpes.
“Enorme Sreng veio, e matou trezentos de nossa hoste. Ele deu nove golpes no seu escudo, Nuada.
“Você, Nuada, friamente devolveu a Sreng nove golpes, mas Sreng cortou o seu braço, guerreiro impetuoso, no ombro.
“Você ergueu um alto grito por ajuda, e aquele da Noruega veio. Sreng e Aengaba lutaram com vontade um batalha bem disputada com armas de guerra.
“Quando Aengaba gritou por ajuda, eu fui rapidamente; quando cheguei, ainda descansado, Sreng recusou um combate contra nós dois.
“Mella, Esec, Ferb, e o ruivo-sangue Faebur caíram perante nós na mesma batalha.
“Os quatro filhos de Gann caíram nas mãos pelas mãos de Goibnenn, o Ferreiro, de Aengaba dos Ataques, de Lucraidh e de Diancecht.
“Bedg e Rinde e Redg, os três filhos de Ordan das artes, foram mortos certamente pelos belos filhos de Cainte.
“Eochaid e seu filho, Slainge o Belo, mataram em batalha um grande número dos herois das Tuatha Dé.
“Na batalha, a sede tomou o rei Eochaid, e ele não encontrou alívio até que chegou ao córrego de Eothail.
“Os três filhos de Nemid o cercaram no córrego silencioso, e ali eles lutaram até que todos caíram juntos.
“Lugaid, filho de Nuada, me parece, foi morto por Slainge o Belo; e Slainge, embora tão feroz antes, foi morto lutando contra as Tuatha Dé.
“Brian, Iucharba e Iuchar, os três filhos de Turenu Bigrenn, mataram Esca e Econn e Airbe.
“Após isso, foi Sreng quem dominou a luta – e muitos eram aqueles que mudaram as cores – por três dias, mas nem ele nem nós deixamos o combate.
“Cansados estávamos nós em cada lado, e resolvemos nos separar. Os combates de cada homem, como eu ouvi, eu devo contar exatamente.”
57.Tristes e cansados, feridos e cheios de pesadas reprovações estavam os Fir Bolg naquela noite. Cada um enterrou seus parentes e familiares, seus amigos e conhecidos e primos; e então eles ergueram montes sobre os bravos, e lápides sobre os guerreiros e tumbas sobre os soldados, e colinas sobre os heróis. Após isso, Sreng, Semne, e Sithbrug, os filhos de Sengann, convocaram um encontro para conselho e deliberação para os trezentos reunidos. Eles consideravam o que era de seu interesse fazer, se eles deveriam deixar a Irlanda, ou oferecer batalha regular, ou aceitar partilhar a terra com as Tuatha Dé. Eles decidiram oferecer batalha às Tuatha Dé, e Sreng disse:
“Resistencia é destruição para homens; nós resolutamente demos batalha, huve duelo de duras espadas, o forte vôo de lanças nos flancos de nobres guerreiros, e a quebra de broquel em escudo; cheias de problemas estão as planícies da Irlanda; desastre nós encontramos sobre suas florestas, a perda de muitos bons homens.”
58.Eles pegaram seus fortes escudos recurvos, suas lanças venenosas e suas espadas afiadas com laminas azuis. Assim equipados, eles fizeram um intenso ataque assassino, uma feroz companhia selvagem, com suas lanças firmemente presas no ataque, cortando seu caminho em um fogo flamejante de fúria para enfrentar qualquer infortúnio e qualquer tribulação. Foi então que Sreng desafiou Nuada para combate individual, como eles lutaram na batalha anterior. Nuada o enfrentou bravamente e corajosamente como se ele estivesse ileso, e disse: “Se o combate individual em termos justos é o que busca, amarre sua mão direita, como eu perdi a minha; só então nosso combate será justo.” “Se você perdeu sua mão, isso não me dá nenhuma obrigação,” disse Sreng, “pois nosso primeiro combate foi em termos justos. Nós mesmos iniciamos a luta.” As Tuatha Dé tomaram conselho, e sua decisão, e sua decisão foi oferecer a Sreng sua escolha das provincias da Irlanda, enquanto um acordo de paz, boa vontade, e amizade seria feito entre os dois povos. E assim, eles fizeram a paz, e Sreng escolheu a provincia de Connacht. Os Fir Bolg se reuniram ao seu redor de cada lado, e teimosamente e triunfantemente tomaram a posse da provincia contra as Tuatha Dé. As Tuatha Dé fizeram de Bres seu rei, e ele foi Alto-Rei por sete anos, Ele morreu após tomar uma bebida enquanto caçava em Sliab Gam, e Nuada, sua mão amputada sendo substituida, se tornou rei da Irlanda. E essa é a história da Mag Tured Cunga.
Isso foi escrito na Planície de Eithne, a Filha das Fadas, por Cormac O'Cuirnin para seu companheiro Sean O'Glaimhmn. Dolorosa para nós é sua deserção quando ele nos deixou em uma jornada.
Fonte:
Fraser, J. “The First Battle of Moytura.” Ériu v.8 (1915), pp. 1-63 [H 2.17]
Versão em Português: Wallace William de Sousa.

A Mari Lwyd

No auge do Inverno, com as noites frias e longas, nas vilas do leste de Gales, na região de Gwent e Glamorgan, uma estranha cena poderia ser vista. Um crânio de cavalo, vestido com um fino tecido branco, usado como um véu, ornamentado com fitas e guizos, poderia estar sendo carregado pelas ruas, seguido por uma procissão de jovens. Se eles batessem à sua porta, era porque a Mari Lwyd havia escolhido sua casa para receber suas oferendas. Dado o forte enfoque Celta para a poesia, haveria uma disputa de versos, que falavam sobre a época fria em que se vivia, sobre o destino final de todas as pessoas (a morte, um tema comum à essa época) bem como sobre o futuro que a nova estação prometia, com seu Sol e seu calor. Se você desistisse, a Mari Lwyd poderia ser carregada para dentro de sua casa e o caos estaria instalado. Se não, os jovens da procissão apenas pediriam por alimentos como oferenda, em uma tradição próxima ao do Halloween, e partiriam para a próxima casa.
O nome da Mari Lwyd é normalmente traduzido como “Égua Cinzenta”, mas a palavra Galesa para egua é caseg, portanto, a tradução é improvável, sendo que o nome atual provavelmente tem a origem ligada à tradição Cristã, significando “Maria Cinzenta”, ligado à época dificil em que a cerimônia acontecia, e que voltou a acontecer. Apesar da ligação com o Cristianismo, a base da cerimônia é bem pouco Cristã. Um crânio de cavalo carregado como troféu, ornamentado, e com teor de reverência, é um retorno a caracteristicas totemicas que o Judaico-Cristianismo já ignorava em tempos medievais, mas que os povos Cristianizados ainda carregavam como sobrevivência de suas antigas crenças. Por sua localização nas províncias do Leste do País de Gales, há uma probabilidade de a prática não ser de origem Celta, mas sim Germânica, mas sua ausência na Inglaterra nos sugere que a Mari Lwyd é, sim, uma prática Galesa, e de possível origem Britonica. Uma cerimônia com caracteristicas fortemente sazonais, e associada à terra, cuja vida começa a retornar no Solsticio de Inverno, com a presença sempre forte da poesia natural (em Galês, claro), e a possivel representação das deusas-égua da soberania, a ligação da Mary Lwyd com as tradições Celtas é bastante forte.
A prática da Mary Lwyd permaneceu dentre o povo dos vilarejos de Glamorgan e Gwent nos tempos medievais e na Renascença, aparentemente sem sofrer realmente perseguição das autoridades Católicas ou Protestantes, com apenas alguma condenação da Igreja Metodista no século XIX. De qualquer modo, nessa época, a festa passou a ser associada com bandos arruaceiros e sua importância começou a diminuir, praticamente sumindo no início do século XX. Sua prática foi continuada em Llangynwyd e em tempos mais recentes, foi revivida em algumas cidades. Hoje, a Mari Lwyd está novamente viva em Gales.
A lenda da Mari Lwyd conta com duas versões: uma delas, bem Cristianizada, e próxima da prática medieval e atual que conhecemos nos diz que, quando a Sagrada Família escolheu o estábulo onde Maria teria seu filho, a Mari Lwyd e seus potros foram expulsos e desde então, ela vai vagando pelas vilas em busca de um estábulo para passar o Inverno. A outra versão nos diz que, na noite do Solstício de Inverno, os potros da Mari são levados embora, e desde então, em todo meio de Inverno, ela vaga em busca dos seus filhos. Essa lenda guarda uma grande semelhança com a história de Rhiannon, que também tem seu filho levado, e é recuperado. Rhiannon é fortemente associada com a égua, e seu nome normalmente é traduzido como “Grande Rainha” (em Britonico, Rigantona), e ligação das deusas da soberania com a figura da égua é bem conhecida (Epona e Macha são outros exemplos). Além da ligação do mito da criança divina que é roubada, e é recuperada para trazer novamente a fertilidade ao mundo, aqui simbolizada por Pryderi, filho de Rhiannon. Assim, podemos fazer um esquema hipotético de uma deusa da soberania (Rhiannon) que tem seu filho solar (Pryderi) roubado, o que traz um ermo à terra (o Inverno), mas que é buscado novamente no Solsticio, quando as noites começam a ficar mais quentes e os dias mais longos. Demorará até que Pryderi cresça, e atinja seu auge, mas ao menos, seu retorno é buscado, e para que a nova estação de cultivo comece. Um esquema hipotético, claro, mas não tão improvável, dadas as imensas semelhanças mitológicas e ritualisticas dessa prática.

Hu Gadarn

A raça dos Cymry não viveu sempre na Ilha da Bretanha. No sombrio passado, eles habitaram o País do Verão chamado Deffrobani. Enquanto eles viajavam, um grande benfeitor surgiu entre eles, ao qual o nome Hu Gaddarn, Hu, o Poderoso, foi dado. Ele inventou o arado, e os ensinou a cultivar o solo. Ele os dividiu em comunidades, e lhes deu leis, pelas quais as lutas e contendas eram divididas. Sob sua guia, eles deixaram o País do Verão, e cruzarando o Mor Tawch em pequenos barcos, eles vieram à Ilha da Bretanha, e tomaram a posse dela sob a proteção de Deus e Sua paz. Antes daquele tempo, ninguém vivia nela, mas era plena de ursos, lobos, texugos, e gado selvagem; ninguém, portanto, tinha direito à Ilha da Bretanha além dos Cymry, pois eles foram os primeiros a se assentar nela. Eles lhe deram o nome de Ilha do Mel, pela grande quantidade de mel que eles encontraram (Bretanha é um nome posterior). Hu os governou com justiça, estabelecendo sábias regras e ritos religiosos, e aqueles que através da graça de Deus haviam recebido o gênio poético eram feitos professores da sabedoria. Através de suas canções a história e a verdade foram preservadas durante as eras até que a arte da escrita fosse descoberta.
Algum tempo depois que eles chegaram à Ilha do Mel, os Cymry foram muito atacados por um monstro chamado an afanc, que rompeu os bancos de Llyn Llion, onde morava, e inundou suas terras. Nenhuma lança, dardo, ou flecha fazia qualquer marca em sua pele, então Hu Gaddarn resolveu retira-lo de sua morada e coloca-lo onde ele não faria nenhum mal. Uma garota o atraiu de sua toca aquática, e enquanto ele dormia com sua cabeça sobre os joelhos dela, ele foi preso com longas correntes de ferro. Quando ele acordou e percebeu o que havia sido feito, ele se levantou, e rasgando a sua amada em vingança, correu para seu velho refúgio. Mas as correntes estavam presas ao rebanho de gado selvagem de Hu Gaddarn, que o puxaram do lago e o arrastaram através das montanhas até Llyn y Ffynnon Las, o Lago do Poço Verde, em Cwn Dyli, em Snowdonia. Um desfiladeiro pelo qual eles passaram tem sido sempre chamado Bwlch Rhiw'r Ychen, o Desfiladeiro do Galopar do Gado. Um dos bois perdeu um dos olhos pelo seu esforço no desfiladeiro, e o lugar foi chamado Gwawn Llygad Ych, a Charneca do Olho do Boi. Um poço foi formado onde o olho do boi caiu que é conhecido como Pwll Llygad Ych, o Poço do Olho do Boi; o poço nunca seca, embora nenhuma água se erga nele ou flua nele, exceto quando a chuva cai, e nenhuma água flua dele, mas ele tem sempre a mesma profundidade, chegando à altura dos joelhos.
O afanc não podia romper os bancos do Lago do Poço Verde, mas ainda é perigoso passar próximo a ele. Se uma ovelha cai no lago, ela é de uma vez puxada para o fundo,e não está a salvo nem mesmo um pássaro que voa ao redor dali.
Giraldus Cambrensis, Gerald of Wales, Gerallt Gymro ou Geraldo de Gales, foi uma autoridade eclesiastica, que viveu entre 1140 e 1220. Filho de nobres Galeses, ele viajou pelas Ilhas Britanicas, coletando cultura e hábitos dos camponeses de várias regiões, da Nortumbria à Irlanda, da Cornualha à Escócia.
No que podemos entender sobre a obra de Giraldus, ele se torna extremamente valioso para aqueles que estudam os povos Celtas e as possiveis evidências de sua antiga religião sobrevivendo em meio ao folclore dessas regiões. É dele a descrição do rito do sacrificio da égua na Irlanda, bem como a descrição dos Awenyddion de Gales.
Então, se ele é tão valioso, porque há no titulo, a palavra "problema" ? Porque, Giraldus, no auge da era medieval, estava longe de ser um homem que se pudesse chamar de neutro. Filho de nobres não apenas Galeses, mas também Normandos, ele devia obediencia à coroa Britanica; além disso, devia obediencia também à própria Igreja. Assim, se ele é gentil ao nos ceder tantas boas informações, em muitas outras podemos ver que ele camufla informações sob sua manta clerical, sob a coroa Inglesa e sob a fachada Galesa. E é uma fachada que ele defende bem. Descreve os Galeses como um povo próximo à perfeição, um terror para seus inimigos, mas que já havia sido conquistados pelos Normandos nessa época, e com poucas batalhas. Essa defesa do povo Galês tem mais a ver com o fato desses descendentes de Celtas terem sido subjugados mais com artimanhas politicas do que com batalhas, e era uma forma de o governo Anglo-Normando fingir que reconhecia as suas caracteristicas,fossem reais ou imaginadas, ainda que também apontando-lhes os seus defeitos, esses bem reais. Assim, quando eles nos fala sobre os Galeses entrando em batalha de modo aterrorizante e aos gritos, mas que são vencidos rapidamente por unidades de batalha organizadas, nós vemos praticamente um relato identico sobre como os Romanos venciam os Celtas. Também era verdadeiro o hábito do saque entre os Celtas, principalmente entre suas próprias tribos. Essa desunião foi uma das principais causas de sua queda. Verdadeiro também era o grande respeito pela linhagem familiar entre os Celtas. Um fato muito interessante é notado quando ele fala dos corais. A música folclórica Galesa é menos conhecida por seus reels e jigs, como a Irlandesa e a Escocesa (embora ela os tenha, normalmente tocados em flautas, e não usando violinos), mas sim por seus belos corais, demonstrando que essa é uma tradição que já vinha desde tempos anteriores à conquista normanda. E a hospitalidade e generosidade sempre foram virtudes Celtas mesmo. Mas devemos sempre estar atento aos exageros de Giraldus e outros cronistas medievais, querendo exaltar o próprio povo, pelos mais diversos possiveis. Pois os Galeses eram homens, com muito de Celtas ainda, mas humanos (como os próprios Celtas o eram) e com certeza sofreriam com a fome, diferente dos Galeses que Giraldus nos descreve abaixo.
O povo Galês é leve e ágil. Eles são ferozes mais que fortes, e totalmente dedicados à prática das armas. Não apenas os líderes mas toda a nação é treinada na guerra. Soe a trombeta para a batalha e o camponês irá largar de seu arado para pegar suas armas tão rapidamente quanto o nobre da corte.
Eles aram o solo uma vez em Março e Abril para a aveia, uma segunda vez no verão, e então o fazem uma terceira vez enquanto o grão está sendo maturado. Dessa forma, toda a população vive quase que exclusivamente de aveia e da produção seus rebanhos, leite, queijo e manteiga. Eles comem uma plenitude de carne, mas pouco pão.
Eles são passionalmente devotados à sua liberdade e à defesa de seu país: por essas eles lutam, por essas eles sofrem privações, por essas eles vão de bom grado pegar em suas armas de bom grado sacrificar suas vidas.
É um fato extraordinário que em muitas ocasiões eles não hesitaram em lutar sem nenhuma proteção no todo contra homens vestidos em ferro, desarmados contra aqueles usando armas, a pé contra cavalaria montada. Eles são tão ágeis que muitas vezes venceram batalhas lutadas contra tais revezes.
Os Galeses não são dados nem à gula nem à embriagues. Eles gastam pouco em comida ou roupas. Seu único interesse na vida consiste de cuidar de seus cavalos e manter suas armas em boa ordem, sua única preocupação a defesa de sua terra natal e se apoderar do butim.
Se a comida é pouca ou se eles não a tem, no todo, eles esperam pacientemente pela próxima noite. Nem fome nem frio pode dete-los. Eles passam as noites escuras e tempestuosas observando os movimentos dos seus inimigos.
Em Gales, ninguém mendiga, as casas de todos são abertas a todos, para os Galeses, a generosidade e a hospitalidade são as maiores de todas as virtudes.
Quando eles se juntam para fazer música, eles cantam suas canções tradicionais, não em unissono, como é feito em outros lugares, mas em partes, em muitos modos e modulações. Quando um coral se reúne para cantar, o que acontece muitas vezes nesse país, você irá ver tantas partes e vozes quanto músicos, todos se juntando no fim para produzir uma única harmonia e melodia na leve doçura da afinação em B.
Os Galeses valorizam o nascimento distinto e descendência nobre mais do que qualquer coisa no mundo. Eles prefeririam casar com uma familia nobre do que com uma mais rica. Mesmo os camponeses conhecem sua arvore familiar e podem prontamente recitar a lista de seus avôs, bisavôs, tataravôs, até a sexta ou sétima geração...
O povo Galês raramente mantém suas promessas, pois suas mentes são tão instáveis quanto seus corpos são ágeis.
É o hábito dos Galeses roubar qualquer coisa que eles possam colocar em suas mãos e viver do saque, roubo e banditismo, não apenas de estrangeiros e pessoas hostis à eles, mas também entre si.
Em guerra, os Galeses são muito ferozes no inicio da batalha. Eles gritam, fitam ferozmente o inimigo, e enchem o ar com um aterrorizante clamor, fazendo um alto guincho com suas trompas longas. Do seu primeiro e precipitado feroz primeiro ataque, e a chuva de arpões que eles lançam, eles parecem ser oponentes mais formidáveis. Se o inimigo resiste virilmente e eles são repelidos, eles são imediatamente lançados em confusão.
Os Galeses são mais atentos à sua terra e à extensão de suas posses do que qualquer outro povo que eu conheça.

ORAÇÕES: TRADICIONALISMO E INSPIRAÇÂO

Orações. Talvez a forma mais simples conhecida de comungar com os Deuses. Talvez dentro dos movimentos pagãos, essa prática não seja tão valorizada quanto deveria, quando as pessoas se preocupam principalmente com rituais elaborados e oferendas, mas a prática e a valorização da oração dentre as religiões antigas é bastante clara. Existem orações preservadas dos Gregos e Romanos, trechos de orações entre os Escandinavos, orações essas que poderiam ser usadas pelos devotos, sem a necessidade um sacerdote para media-la. Essa prática também é bastante visível entre os povos Celtas, principalmente entre os Gaélicos, com a Carmina Gadelica.
A Carmina Gadelica é uma coleção de canticos e orações reunidas por Alexander Carmichael, nas regiões Gaélicas da Escócia; ali, em meio a todo o folclore Gaélico, Carmichael reconheceu o forte teor pagão oculto entre as práticas Cristãs, como as práticas divinatórias, as orações à santa Brigida e algumas citações à possiveis deidades pagãs, como o "Homem do Mar" (me perdoem, mas um tradicionalista Gaélico falando de um "Homem do Mar", para mim, está falando de Manannán), além do forte significado de feitiço dentre algumas orações. Nota-se também a grande variedade de orações, muito maior do que dentre os cristãos de outras regiões, mais influenciados pela ortodoxia romana, uma vez que entre os Gaélicos, também da Irlanda, mas principalmente na região do Dál Riada Escocês, de acesso muito mais dificil, a mescla entre as tradições Cristãs e Pagãs permitiu uma sobrevivencia muito maior de práticas da religião anterior na posterior. De fato, a Igreja Cristã Celta chegou a ser reconhecida como perigosa pelo Vaticano, e muitas de suas práticas foram banidas, mas como sempre, entre o povo do interior, e principalmente de regiões isoladas, essas práticas custaram a desaparecer. Porém, uma coisa não pode ser negada de forma alguma. Essas práticas, como o Frith (divinação escocesa) ou as orações nos chegam hoje como sendo parte do Cristianismo, diferente do Cristianismo que conhecemos hoje (e muito mais Celta do que qualquer prática Wiccan e de muitos outros grupos neo-pagãos que exista), mas ainda assim, continua sendo Cristianismo. Por isso, elas não são apropriadas à nossa prática, por mais Celtas que sejam, pelo menos dessa forma. Só que, se admitimos o forte teor pagão dessas orações, não seria correto tentar utilizar o substrato pagão oculto por trás delas ? Culturalmente, isso é errado. Tais orações são patrimonios culturais das Terras Altas Escocesas e de muitas partes da Irlanda também. Danifica-las é ofender essa cultura. Dizer que as está "devolvendo ao paganismo" orginal não é diferente do que os Ingleses, Portugueses, Franceses e Espanhois fizeram ao banir as linguas e culturas de seus povos colonizados para impor a sua. Porém, usar essas orações como inspiração, como guias para uma oração pagã, sem negar a original Cristã, não seria errado, afinal, você não está negando a Cristã (que é mais Celta que 90% das tradições neo-pagãs por aí), e está criando uma nova, usando a estrutura Gaélica para dedica-la aos Deuses Celtas. Isso sim, seria muito mais apropriado.
Já houve uma tentativa de faze-lo, infelizmente voltada para a Wicca. A "Carmina Gadelica Pagã", de Mike Nichols, foi uma tentativa de repaganizar a Carmina Gadelica. Infelizmente, Nichols não tinha conhecimento histórico, folclórico ou antropológico necessário para falar sobre os Celtas. Ou seja, sua "tentativa de restaurar as orações ao seu Paganismo Original" não passa de mais uma tentativa de adaptar essas tradições a uma religião que aos Celtas seria totalmente estranha, e que está completamente contra os valores morais desse povo que valorizava tanto a figura do Rei e do Heroi. Então, qual seria a forma correta de faze-lo ? Não existe forma correta. Tudo o que poderiamos fazer é conhecer essas orações, junta-las ao nosso conhecimento e deixar a inspiração nos guiar. É isso o que Nichols fez, mas juntou as orações com uma ideologia que nada tem a ver com os Celtas. E é isso que farei como exemplo agora, tendo a Carmina Gadelica Tradicional e a Carmina Gadelica Pagã, e usando ambas para guiar a minha inspiração. A minha visão dos Celtas como povo politeista pode torna-las muito diferente das de Nichols, mas algumas como "Nos proteja e nos guarde", terminarão muito semelhantes à dele, pois ali, a inspiração o guiou à algo que eu considero muito próximo ao conhecimento que tenho sobre os povos Celtas. Claro, como eu disse, dizer que essas são versões definitivas é um crime cultural. São apenas orações que eu deixei meu espirito falar, combinado com meu conhecimento. Cada um pode usa-las se quiser, apenas para propósitos religiosos, nunca para desmentir as originais. E cada um pode simplesmente toma-las como exemplo e deixar a sua própria inspiração fluir. Enfim, que o Awen os guie à um melhor uso de tais tradições.

"Nos proteja e nos guarde"

Valente Nuada, da Espada Brilhante
Que derrotou aos Firbolg da Terra
Pela honra da tribo, das Tuatha Dé Danann
Segura teu escudo sobre nós, a todos proteja

Segura teu escudo sobre nós, a todos proteja

Brighid amada, senhora do fogo brilhante
Proteja-nos, Proteja-nos Senhora da Poesia
E Brighid, a nobre, pastora dos rebanhos
Guarda nossos animais, nos circule com tua chama.

Guarda nossos animais, nos circule com tua chama.

E Manannán, habilidoso, radiante,
Aquele que nos guia através da névoa
Torna seguro nosso caminho, nossa viagem
Guie-nos, à nossa procissão proteja.

Guie-nos, à nossa procissão proteja.

A Nemhain ! A Badbh ! A MOrrigu !
Estejam as três hoje ao nosso lado.
Na planicie verde, na alta montanha.
Estejam as três conosco, conosco sua benção.

Estejam as três conosco, conosco sua benção.


"Runa antes da Oração"

Eu estou me ajoelhando
No olho de Manannán que me guiou,
No olho de Nuada que me protegeu,
No olho do Lugh que me purificou,
Em amizade e respeito.
Através de vossos próprios caminhos, ó Deuses.
Tragam-nos a totalidade para nossas necessidades.
Respeito para os Deuses
A amizade dos Deuses
O riso dos Deuses
A sabedoria dos Deuses
A graça dos Deuses
O medo dos Deuses
E a vontade dos Deuses.
Para que seja feito nos Três Mundos
Como os Deuses e Sidhe
O fazem no Outro Mundo.
Cada sombra e cada luz
Cada dia e noite
Cada hora em gentileza
Dê-nos vosso Espirito.

"Oração do Mar"

DRUIDA: Abençoe o barco
PESCADORES: Manannán do Mar o abençoe
DRUIDA: Abençoe o barco
PESCADORES: Manannán das Chuvas o abençoe
DRUIDA: Abençoe o barco
PESCADORES: Manannán das Névoas o abençoe
TODOS: Deus do mar
Deus das chuvas
Deus das Névoas
Abençoe o barco.
DRUIDA: Que pode recair sobre você
e Manannán do Mar com você ?
PESCADORES: Nenhum mal pode recair sobre nós.
DRUIDA: Que pode recair sobre você
e Manannán das Chuvas com você ?
PESCADORES: Nenhum mal pode recair sobre nós.
DRUIDA: Que pode recair sobre você
e Manannán das Névoas com você ?
PESCADORES: Nenhum mal pode recair sobre nós.
TODOS: Deus do Mar
Deus das chuvas
Deus das Névoas
Conosco Eternamente.
DRUIDA: O que pode lhe causar ansiedade
E o Deus dos Elementos sobre você ?
PESCADORES: Nenhuma ansiedade pode ser nossa.
DRUIDA: O que pode lhe causar ansiedade
E o Filho dos Elementos sobre você ?
PESCADORES: Nenhuma ansiedade pode ser nossa.
DRUIDA: O que pode lhe causar ansiedade
E o Espirito dos Elementos sobre você?
PESCADORES: Nenhuma ansiedade pode ser nossa.
TODOS: O Deus dos Elementos
O Filho dos Elementos
O Espirito dos Elementos
Próximo a nós,
Para sempre, eternamente.
UISCE = água
TINE = fogo

O encontro do Fogo com a Água gera fumaça e névoa, quando a água extingue a chama e é por ela evaporada. Me permitindo uma certa licença, a névoa (que é água em forma de vapor) é uma das entradas para o Outro Mundo Celta na mitologia. St. Collen, ao entrar nas névoas de Glastonbury, é levado à corte de Gwynn ap Nudd. Conn das Cem Batalhas, ao se perder nas névoas em Tara, vai de encontro a Lugh e sua esposa Flath Eíreann. A névoa é erguida na Ilha de Mann por Manannán, para protege-la, e é nela que os DRuidas Gaélicos utilizavam o Féth Fiada para a mudança de forma.
Ao levar essa questão para um simbolismo moderno, o que seriam a água e o fogo que formam a névoa, a névoa que nos guia ao nosso lugar no Outro Mundo, a névoa que nos liga aos Deuses, a névoa que é tão importante para a mitologia Celta ? Partindo da opinião de Erynn Laurie (do qual esse texto é apenas uma extensão), o fogo é o estudo academico, aquele estudo que nos leva ao que é tradicionalmente Celta, e a água é o estudo exotérico e místico, aquele que nos leva a tentar suprir as lacunas que nos faltam no conhecimento das práticas Celtas. Esse inclui magia natural, magia cerimonial, meditação, xamanismo, enquanto o outro trata de mitologia, história, antropologia, estrutura social, linguistica e mesmo canções e poesia tradicional. Todos são parte da névoa que nos liga ao Outro Mundo nos tempos modernos. E, coincidentemente (ou não), esses elementos parecem incompátiveis também, como a água e o fogo. Mas ambos são necessários ao nosso caminho moderno, assim como tanto a água quanto o fogo são necessários ao vapor que forma a névoa.
Antes de mais nada, porque o estudo acadêmico é o Fogo ? Porque ele é tradicional. É aquilo que é reconhecido como genuinamente Celta, e ninguém entra nesse caminho (pelo menos não de um Druidismo com respeito à História ou do Reconstrucionismo Celta) sem ter paixão por esse povo e suas práticas. É aquilo que nos faz querer estudar mais e mais, querer conhecer mais, e nos dar mais respeito e fascinação pelos Celtas. Nós precisamos do Fogo, precisamos saber como esse povo vivia, quais eram seus valores, quais eram seus Deuses (que, por acaso, são os nossos), o que cantavam e para que poetizavam. Não se segue uma religião Celta sem saber que foram os Celtas. Todos os estudiosos concordam sobre isso. Mas até onde precisamos estudar isso ? Ninguém precisa se tornar um grande academico, um LeRoux, ou uma Miranda Green (mas se você se tornar, seja bem vindo :). Mas um conhecimento básico de mitologia Celta (as Batalhas de Magh Tuiread, os Quatro Ramos do Mabinogion, o Sonho de Oengus, a Corte a Étain, o Taliesin, os contos folclóricos Arthurianos, um básico sobre os CIclos Ultoniano e Feniano seriam o bastante), de ética Celta (Tríades, as Instruções do Rei COrmac, o Testamento de Morann, as Leis de Hywel Mawr, um pouco das Leis dos Brehon), Historia (Guerras Gálicas, conquista da Brittania, a cristianização) e Teologia Indo-Européia (Politeismo, castas sociais) seriam o bastante para ajudar a colocar um iniciante em um caminho com um certo grau de tradicionalismo.
Infelizmente, para nós, o Tradicionalismo não é o bastante. Não é possivel negar que muito foi perdido, e que muito do que os grupos modernos utilizam não é tradicional. Isso é errado ? Não. É por isso que o estudo mistico é agua, mais fluente, mais dificil, mas igualmente necessário. Os bardos Gaélicos entravam em casernas escuras, com pedras em seus peitos e lá ficavam até atingir o Imbas. Não sabemos os detalhes do processo, mas entendemos isso como uma forma de meditação, e podemos utilizar outras formas de meditação para tentar atingir o mesmo efeito. Os Awenyddion de Gales entravam em um estado em pronunciavam vaticinações em palavras desconexas "mas que faziam todo o sentido". Até onde podemos entender, seria um estado semelhante ao estado de extase das tradições xamanicas. Claro que não estou (estamos, no caso da comunidade Reconstrucionista Celta) sugerindo simplesmente pegar práticas religiosas de diferentes tradições religiosas e agrupar às nossas simplesmente porque achamos que estão faltando pedaços na tradição Celta. Antes de mais nada, elas estão mesmo perdidas ou nunca existiram entre os Celtas ? Se a resposta for a segunda alternativa, a sua utilização não deve ser considerada parte de uma prática pagã Celta, ainda que não seja condenavel utiliza-la. Para uma prática ser entendida como perdida, temos de olhar as evidências históricas, ver algo que sabiamos ser feito, ainda que sem saber como, e só então procurar por algo semelhante. Mesmo nesses casos, a prática pode ainda ser o mais Celticizada possivel (utilizar paisagens mitologicas Celtas ao invés das básicas paisagens do Xamanismo nas meditações, por exemplo).
Assim, com o Fogo do conhecimento queimando em nossos corações e mentes, e a água do mistico, que ainda que passe por grandes pedregulhos, ainda assim pode fluir, se ela correr na mesma direção da tradição, se encontrando dentro de nós, podemos formar a névoa do Outro Mundo, aquilo que nos guiará e gerará comprometimento tanto com os Celtas Ancestrais quanto com nós mesmos e nossos tempos.
A QUESTÃO DA INICIAÇÃO E GRADUAÇÃO

Com a devida importância dos papéis definida, podemos nos voltar ao quesito de Graduação. No meio neo-pagão, a maioria das pessoas vem de meios em que a hierarquia é definida rigidamente em graus, e no qual você necessita ser iniciado para participar da religião. No Druidismo e no Reonstrucionismo Celta não é assim. Você não precisa ser iniciado por ninguém para participar da religião, vc apenas precisa de seu comprometimento pessoal. No caso, a maioria pode vir a entender que para participar do cargo do Féirmeoir, a iniciação e a graduação não é necessaria. De fato, não é. Mas uma divisão hierarquica simples sobre niveis de conhecimento aconteceria. Afinal, um Féirmeoir com mais conhecimento do que outro naturalmente assumiria mais responsabilidades, mas também seria cobrado dele mais sabedoria. E nos outros papéis ? Já foi dito que discordo veementemente de hierarquia entre os cargos, mas não de uma hierarquia que possa ser necessária ao grupo ritual, uma vez que aqueles com mais conhecimento e/ou sabedoria merecem sim serem tratados com um respeito devido, se estiverem realizando suas funções e, principalmente, orientando aqueles com menos conhecimento. Mas nos outros cargos, existiria uma graduação e Iniciação ?
Nos registros históricos, é visto que haviam vários quesitos a serem cumpridos para se atingir o posto de Druida e Bardo, assim como haviam firmes exigências para se atingir o posto de Rei (ainda que não esteja aqui sugerindo a criação de uma estrutura monárquica para um grupo ritual; acho que isso seria contraproducente...). Provavelmente, para tais cargos haveria algo que reconheceriamos como "iniciação", seja alguma reunião obscura na terra dos Carnutos, seja participar de algum rito com uma égua na Irlanda. Porém, isso nos é interessante hoje em dia ? O rito com a égua não, nem viajar para a França e descobrir onde raios era a terra dos Carnutos, mas acredito que um certo reconhecimento daqueles que atingem determinado grau de entendimento pode sim ser incentivo, além de ajudar a delegar funções no grupo. Assim, a minha opinião é a favor da Iniciação. E quanto à Graduação ? Podemos supor que haveria um hierarquia entre os Druidas sim, assim como havia entre os Bardos da Irlanda. Mas os processos sobre isso ou foram perdidos, ou são complexos demais para se utilizar plenamente em um grupo ritual moderno (como os vários graus entre Bardo e Ollamh). Ainda assim, é um conceito que pode ser plenamente integrado ao de Iniciação; numa visão puramente neo-pagã (portanto, não-tradicional), eu acredito pessoalmente que a cerimônia de iniciação pode acontecer a cada vez que a pessoa avança na sua graduação, até atingir seu grau pleno. Mas como definir a graduação em termos modernos e neo-pagãos de forma funcional ?
Até aqui, podemos usar o mesmo esquema da maioria dos grupos misticos, mas adaptados ao modo mais tribal e menos rigído da cultura Celta. Claro que essa é uma visão totalmente não-tradicional, mas não há nenhum mal em inovar. Não vivemos na Irlanda da Idade do Ferro e temos que entender que nos nossos tempos as coisas funcionam diferente, e dessa forma, as coisas fazem mais sentido para mim. A principal inspiração dessa visão veio de um livro neo-pagão, Irish Witchcraft From An Irish Witch, da escritora Irlandesa Lora O'Brien, que não nega em nenhum ponto as influências das vertentes mistícas mais modernas, mas que as adapta à sua própria forma de crença, tradicionalmente Celta. E é dela que eu pego emprestada essa visão sobre graduação;
Antes de mais nada, nas crenças exotéricas modernas, existe um "não-grau", o posto do Não-Iniciado, aquele que é recém chegado e ainda está inciando os seus estudos. Ao adaptar esse posto à sua visão, Lora nos dá a idéia não de um Não-Iniciado, o que é um termo por vezes desagrádavel, mas sim de um Convidado (Cuaiteoir/Gwestai). Esse posto seria ocupado por todos aqueles que não seriam ainda membros efetivos do grupo, mas que frequentam reuniões, ritos e tem contato constante com o grupo. Esse grau seria considerado como semelhante, em alguns pontos, ao posto de Féirmeoir, mas com menos responsabilidades, uma vez que o membro não é parte integral do grupo ainda, e está iniciando seus estudos e adaptação. Após um período como Gwestai, ele tem a possibilidade de ser um membro em definitivo do grupo, como posto de Féirmeoir efetivo, ou membro de outro cargo em treinamento. Algumas vezes, o período como Convidado pode ser ignorado, se for para entrade de um pessoa com muita experiência e afinidade com o grupo. Claro que, mesmo como convidado, o membro tem seu papel e é respeitado por ele. Afinal, Hospitalidade para os Convidados é uma virtude Celta.
Após esse ponto, chegamos àquilo que os grupos misticos chamariam de Primeiro Grau, ou Iniciado. Aqui, podemos definir aquele que está buscando seu conhecimento (Cuardóir/Ceisiai). Nesse ponto, aceitamos os membros como parte do grupo, e aceitamos que todos tem sua responsabilidade e importancia dentro dele. Aqui, seu estudo passa a ser mais formalizado e guiado pelo grupo. Aqui também os membros passam a ser considerados Féirmeoir efetivos, portanto parte da tribo e parte importante dela. Não deve-se nunca pensar que, porque se está no posto de Féirmeoir e não sabe se quer escolher outro cargo, seu estudo termina aqui. Seu estudo continua, e atinge novos patamares, como todos os outros. Assim, o papel do Féirmeoir evolui também, bem como sua autoridade. E aqui, todos, sem excessão passam a ter papel nos rituais do grupo.
Dúine Éolach/Dysgwrwydd Aelod é o grau seguinte. No exoterismo moderno, seria quando alguém seria chamado de "Sacerdote". Ambos os termos significam "Pessoa com Conhecimento". Aqui, a pessoa é reconhecida como tendo o nível necessário para ser considerado um Bardo, um Druida, um Ovate, um Laoch (ou Rhyfelwr). Aqui, o conhecimento da pessoa já atingiu um nivel em que ela pode ser convidada a cuidar do treinamento de um Gwestai ou Ceisiai. E por isso que o posto de Féirmeoir também é importante ao atingir esse nivel. Ele também pode assumir o papel de guiar os recém chegados.
O último grau é normalmente quando a pessoa é considerada um "Alto-Sacerdote". Novamente, aqui usamos termos menos pomposos, que, numa visão tribal, oferecem mais respeito:Séanoir/Hen (Ancião, Antigo). Antes de mais nada, isso pouco tem a ver com idade fisica, e sim com conhecimento. Quando se atinge um nível de conhecimento que esteja próximo aos líderes do grupo, a pessoa pode atingir esse posto. A partir de então, ele também passa a ser considerado como parte da liderança do grupo, e se quiser, pode deixa-lo e criar outro grupo aparentado ao primeiro, recebendo um grau de amizade e reconhecimento do grupo original, onde foi feito o seu treinamento.
Assim, todos os cargos tem a possibilidade de ascenção dentro do contexto do grupo ritual neo-pagão, sem fugir muito dos valores Celtas tradicionais, nem do esquema comum das ordens misticas modernas.
Assim, definimos uma estrutura que é praticamente um reflexo da natureza tribal Indo-Européia tripartida, como é pregada desde os tempos de Georges Dumézil, uma sociedade estruturada num esquema de Povo-Clero-Aristocracia, onde o Povo seriam os Féirmeoiranna, o Clero seriam os Aés Dana, e a Aristocracia seriam os Laochanna. Claro que esse estrutura não é plenamente adaptável aos Celtas (afinal, muito do poder do Rei devia-se aos Druidas, e não era nada incomum o próprio povo arranca-lo do poder), mas ela é adaptável ao conceito do Paganismo Moderno ? Não necessariamente. A maioria dos grupos Druidicos modernos (falando, novamente, somente por aqueles que se empenham em manter um certo teor de respeito histórico em suas práticas) não utiliza os cargos do Féirmeoir e do Laoch, sendo que alguém que não fosse Bardo, Ovate ou Druida, seria apenas um devoto, sem função definida ritualmente, ainda que parte do grupo. Desde os tempos da Senistrognata, o Reconstrucionismo Celta diz que a religião Celta poderia ser praticada sem a presença de Druidas (e há um certo grau de correção nisso, uma vez que orações e oferendas simples seriam feitas pelo povo, provavelmente sem a presença de Druidas, tanto que continuaram a ser realizadas mesmo muito tempo após o fim dos Druidas; e muitos ritos dependiam fortemente da presença do Rei, ou seja, os três grupos tinham atribuições rituais definidas). Ou seja, a presença de um grupo não implica necessariamente na presença de outro.
Esse pode ser um excelente ponto de partida para começarmos. Antes de mais nada, não somos um grupo de revivalistas da Idade do Ferro. Não buscamos uma estrutura tribal trinfuncional para nossas práticas. O motivo que nos guia é principalmente a paixão e a fé nos Deuses. Assim, realmente, não vejo a necessidade obrigatória da presença dos três grupos em um grupo ritual moderno (nem vejo obrigatoriedade da presença dos três subgrupos dos Aés Dana). Porém, a minha principal preocupação é: como chamar os iniciantes, que são recém chegados no grupo (ou mesmo um grupo recém formado, em que todos são iniciantes) ?
É daí que vem o meu pensamento no termo Reconstrucionista Féirmeoir. O Féirmeoir é parte do povo, e não é desprovido de suas funções no quesito ritual. Ele tem acesso à orações, pode fazer oferendas e é a mola motriz por trás da tribo. Sua importancia é muitas vezes diminuida pelos devotos modernos, mas na verdade, quantos de nós realmente poderiam ocupar um posto de Druida na sociedade Celta antiga, ou mesmo o posto de Bardo na sociedade Irlandesa ou Galesa ? O papel do Féirmeoir inclui as pessoas que ainda não tem o conhecimento necessário para se atribuir um posto, ou que aqueles que não se decidiram por um dos outros papéis. No sociedade antiga, o papel do povo era nutrir a tribo. Na nossa também. Não quer dizer no sentido literal, mas a presença de novos membros no posto de Féirmeoir, mesmo que apenas se dedicando para atingir um outro posto futuramente, garante a continuidade do grupo, assim como o plantio e o gado do povo antigo garantia a sobrevivencia da tribo. Eu sugeriria, em termos práticos de grupo ritual neo-pagão, que cada novo membro que reconhecidamente estivesse em grau inicial de aprendizado, passasse um ano no posto de Féirmeoir, para depois se decidir se opta por um outro posto ou continua nesse. Claro que antes, também alguns requisitos minímos deveriam ser definidos para que a pessoa começasse a trilhar um dos outros papéis.
Também deve ser enfatizado que, em um contexto moderno, não deve haver hierarquia entre os papéis. Podemos a ter entre membros do grupo, mas a importancia de um papel não deve ser maior do que a de outro. Não deve haver empecilhos para que um Féirmeoir ou Laoch experiente assuma a liderança de um grupo ritual, mesmo que haja Druidas no grupo também. A importancia de todos é igual. E isso inclui em mostrar a importancia de cada um dos papéis, dando determinadas tarefas a cada cargo, e permitindo à todos a participação em atividades lúdicas. À todos também deve ser dada a chance de inovar e demonstrar seus talentos, e incentivar a pensar melhor no seu papel dentro do grupo, bem como entrar em discussões sobre as atividades do grupo. Assim, permitindo a todos o diálogo e dando certa participação exclusiva, podemos ter membros satisfeitos em todos os cargos, e permitir a criação de grupos rituais mais duradouros e saudáveis no quesito amizade.
Algumas pessoas por vezes me perguntam se eu faço parte de uma "ordem". Seguindo o conselho de um sábio companheiro de grupo, que costuma dizer que "mesmo uma 'desordem' é um tipo de 'ordem'", eu às vezes respondo que sim (as vezes respondo que não, depende do meu interlocutor também). Pelo menos, essa é a resposta usual que dou a pessoas do meio exotérico. Normalmente, preferia usar termos como Tuath ou Tylwyth, mas reconheço que no tamanho do grupo atual, é inadequado, e o termo também teria que ser aprovado pelos membros do grupo. Então, creio que "ordem" esteja funcionando. A não ser quando a resposta vem acompanhada de outra : "Quem é o Mestre de sua ordem ?" Aí a coisa costuma degringolar, porque os conceitos que fazem mais sentido para mim não são os que fazem mais sentido para o meio exotérico/pagão em geral. A maioria das pessoas desse meio vem de práticas como a Wicca e a Magia Cerimonial, em que praticamente todos são sacerdotes, e há uma hierarquia entre graus, e entre mestres e discipulos. Praticamente, a partir do momento em que se entra em um grupo dessa linha, vc começa em um grau baixo e vai subindo, sem muita variação. Mas dentro da minha prática pessoal, eu vejo os caminhos como muitos, isso sem nem mesmo sair da minha crença. Talvez seja um certo tradicionalismo de minha parte, mas até onde sei, manter um certo grau de tradicionalismo só enriquece a prática neo-pagã. E no meu entendimento, a crença no Paganismo Celta, ainda que seja uma estrada de mão única, é uma estrada de várias faixas. O problema é definir o que seria uma faixa ou não: Neo-Druidismo, Reconstrucionismo Celta, Sinnsearadh ou Tradicionalismo Gaélico ? E dentro de cada uma dessas vertentes, quais são as divisões de papéis ? Eu costumo me afastar do radicalismo extremo do Sinnsearadh, apesar de julgar algum de seus valores interessantes. O Tradicionalismo Gaélico é um movimento que é tão Pagão quanto Cristão, portanto, também não costuma me interessar. Por isso, me foco realmente no Neo-Druidismo e Reconstrucionismo Celta, que são os caminhos dentro do Paganismo Celta que mais fazem sentido aos meus olhos.
Antes de mais nada, o que eu entendo por Neo-Druidismo ? Não entendo por Neo-Druidismo a Wicca, nem entendo por Neo-Druidismo os delirios Renascentistas de Iolo Morgannwg (há algo interessante nele ? Há sim. Mas é trabalhoso, para não dizer chato, ficar decifrando o que é bom ou o que é ruim na obra dele). Eu entendo como Neo-Druidismo grupos que se dedicam às tradições pagãs Celtas, mas que tenham também o minimo de consideração pelo lado historico. Nisso podemos incluir grupos tão diversos como a Brittish Druid Order, a Ar nDRaiocht Féin, ou a Henge of Keltria, e mesmo o atual momento da Order of Bards, Ovates and Druids, que hoje busca distanciamento de suas teorias estranhas e "morgannwgianas" do passado e se volta para uma prática mais realista do ponto de visto academico. Todas essas ordens tem a grande diferença de grau de valorização da História, Arqueologia e Antropologia na suas práticas (a OBOD e a BDO costumam ser mais flexiveis, a ADF e a HoK, mais rigidas), mas mantém uma base comum que pode ser reconhecida como sendo "tradicional": o politeismo,o enfoque na cultura Celta e, o objetivo desse artigo, a divisão da sua devosão em três classes: a dos Bardos, dos Ovates e dos Druidas. Isso ainda me lembra as práticas da Wicca, e da Magia Cerimonial, onde todos são sacerdotes/magos/bruxas/o-que-valha. Mas já mostra também uma variedade maior. Além disso, em conversas com membros da BDO, eles dizem que não é necessário seguir um dos três caminhos para seguir o Druidismo, e se pode ser apenas um devoto. Só não fica claro quais são os papéis daquele que é apenas um devoto. Mas não vamos falar deles ainda.
A divisão da casta sacerdotal Celta nessas três classes é bem atestada historicamente, tanto pelos Romanos que estiveram na Gália e na Bretanha, quanto pelas tradições Gaélicas. Essas três classes seriam os Aés Dána, os Neimheadh, aqueles que seriam mais devotados à prática do sagrado. Os Druidas teriam um forte papel legal, além de sacerdotal, seriam Historiadores, Genealogistas, Legisladores, além de Magos, Curandeiros e sacerdotes. Seu papel estaria acima das outras classes sacerdotais, e exigia o maior grau de conhecimento e treinamento. Os Ovates são, dessas três classes, os mais difíceis de explicar: muito do conhecimento do Druida seria o deles também, mas mais voltados à arte da profecia e do augurio, além do herborismo. Seria uma posição muito mais "mistica" do que a de forte liderança politica que teria também de ser exercida pelo Druida. Os Bardos também teriam muito do conhecimento do Druida, no concernente à história, genealogia e principalmente mitologia. Eram experientes na poesia e na musica, e nas lendas, essas artes são fonte de muito da magia dos Celtas. Assim, temos aqui uma divisão sacerdotal em três classes, nos quais uma exige grande autoridade e conhecimento (os Druidas) e as outras, ainda que exijam menos, são mais específicas (Ovate e Bardo). Vamos discutir o que tornaria alguém um Druida, Bardo ou Ovate hoje mais adiante, apenas vamos nos perguntar se dentro do paganismo atual, essas três denominações são pertinentes. E, surpreendentemente, são sim. Mais do que pertinentes, chegam a ser necessárias. Pois os três papéis são muito importantes em grupos rituais modernos. O Druida precisa ser aquele que organiza tudo, pois ele tem o maior conhecimento de todos. O Bardo deve se lembrar das lendas e das referencias mitológicas para cada ocasião. O Ovate precisa entender o curso da natureza local e consultar os oráculos. Assim, a divisão nos papéis nos dada pelo Neo-Druidismo é válida. Mas e aqueles que não pertencem a nenhuma dessas classes, mas são parte da crença. Quais seriam as atribuições deles ? Onde o Neo-Druidismo não deixa claro, uma vertente mais recente, o Reconstrucionismo Celta, nos dá uma boa resposta. O Reconstrucionismo Celta vem de uma divisão dentro de determinadas ordens Druidicas, de pessoas que gostariam de valorizar as fontes academicas. Daí nasceram grupos como a Paganachd, que são os grupos que, na minha opinião, melhor valorizam a Historia, a Arqueologia e a Atropologia dentro do Paganismo Celta moderno. Chegando ao ponto do estudo das linguas Celtas para o entendimento da forma pensamento desse povo, o reconstrucionismo se vale também do folclore, para aumentar o tradicionalismo e a "Celticidade" de suas práticas. Mas sua divisão é diferente da do Neo-Druidismo. Eles reconhecem o papel das três classes do Aés Dana, mas também reconhecem aqueles fora dessa classe mais ampla, o papel dos Gerreiros (Laoch) e dos Devotos (Feirméoir, lit. "fazendeiros"). Aqui, as divisões são muito mais condizentes com o todo da sociedade Celta, e nos fornecem excelente material de trabalho do mundo moderno. Claro que um Laoch não precisa arrancar uma cabeça para ser reconhecido, nem precisa de uma lança e uma espada para defender a tribo nos dias de hoje, mas seu conhecimento marcial e estratégico, bem como sua capacidade de argumentação são as melhores defesas que um grupo ritual pode precisar. O Feirméoir não precisa suprir as necessidades da tribo mais, nem é obrigado a trabalhar na terra, mas sua ajuda é valiosa, e ele pode contribuir da forma que puder, trazendo novidades e idéias; essa é a nutrição que um grupo ritual moderno precisa. Na minha opinião, inclusive, todo recém chegado seria considerado como um Feirméois, mas que poderia permanecer assim se quisesse, pois seu papel não é menos importante do que os outros. E nenhuma dessas posições está banida do mundo do sagrado, do mistico. Todos cultuavam os deuses ao seu próprio modo. E principalmente, no Paganismo Moderno, tais papeis não implicam em hierarquia. Implicam em estudo, cada qual ao seu modo, mas a importancia de todos é a mesma para a tribo.